Contradições, contrastes, desenvolvimento e permanências.

em Istambul.

No lugar estratégico, no estreito Bósforo entre Europa e Ásia, as relações comerciais permitiram o surgimento da Bizâncio, mais tarde Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, séculos depois capital do Império Otomano, já como Istambul.

E foi capital do mundo, por uma estranha relação de interesse psicanalitico. Constantino, o Imperador Romano, resolveu mudar para Bizâncio a capital do Império no ano 330 de Nossa Era, em homenagem à sua mãe, Helena, nascida em território ainda hoje Turco e falecida lá na volta de uma de suas frequentes viagens a Jerusalém (onde coordenava a construção da Igreja do Santo Sepúlcro). Cristã, se atribui principalmente a ela a decisão de tirar o cristianismo da clandestinidade, com o Edito de Milão, em 313. Mais tarde Helena foi canonizada e com seu nome foi batizada a ilha onde outro Imperador, Napoleão, foi exilado e onde morreu. Mas esta é outra história. Muitos anos antes, outra Helena causou uma guerra em outra cidade próxima à atual Istambul, quando a escultura de um cavalo gigantesco passou à posteridade, mas esta também é outra história.

Um mau-caráter húngaro especialista em fundir canhões em 1450 mudou de lado, bandeou-se para quem pagava mais. De assessor do soberano cristão de Constantinopla o trânsfuga vendeu seus saberes aos otomanos que assediavam a até então inexpugnável cidade havia séculos. Chamado Urbano este sujeito fabricou um canhão tão possante que abriu rombos nas enormes muralhas e possibilitou a troca de poder político na mais importante cidade do mundo nos últimos dias de maio de 1453, fechando a “rota da seda”, interrompendo o comércio internacional com o oriente. Desde então o substantivo feminino urbanidade só tem sentido se desvinculado da referência ao canhoeiro húngaro ou ao papas que escolheram serem chamados por Urbano, qualquer dos oito que lideraram o Vaticano durante a Idade Média, com a possível exceção a Urbano VII, assassinado pelos seus opositores na Santa Madre aos 12 dias de pontificado, pela sua falta de tempo para demonstrar toda a sua misericórdia cristã como haviam feito seus antecessores durante a Inquisição, então em seu auge.

A queda de Constantinopla, ao inibir o comércio com o oriente, já que a rota do Cáucaso (destino de Nossa Grande Viagem no primeiro semestre de 2016) era complicada desde aquela época, instigou os Ibéricos a buscarem uma nova rota para as Índias, para o oriente das especiarias que movimentavam o capitalismo nascente. Se os turcos não tivessem conquistado Constantinopla os portugueses e os espanhóis não teriam partido para as Grandes Navegações e talvez a invasão das Américas tivesse tardado um século ou dois. A história da humanidade, a vida e morte de milhões de indígenas no continente “descoberto” por Colombo e a história da América desde então decorreram da troca de poder nesta esquina do planeta em 1453, que em poucas décadas consolidaria o fim Idade Média, decompondo a cosmovisão até então dominante, no Oriente e no Ocidente.

A Istambul de hoje é a síntese de sua história. Metade da cidade conurbada com 14 milhões de habitantes está na Europa, metade na Ásia, meio ocidental, meio oriental, é arcaica e moderna, atrasada e desenvolvida, bárbara e civilizada. É muçulmana e é cristã (ortodoxa, mas cristã). Aqui se encontram permanências inacreditáveis (sufistas, muçulmanos contemplativos e islamitas tão arcaicos e medievais como os cristãos ortodoxos ou como os pentescontais) e posmodernidades de diversos matizes. Arranha-céus dubainianos, edifícios espelhados de gosto duvidoso, relações de trabalho pós-modernas ainda mais exploradoras que as resilientes estruturas corporativas, astesãns, précapitalistas. É neoliberal e é medieval, como se lhe faltasse na história a Modernidade institucional, criadora e respeitadora de direitos sociais e liberdades públicas.
É ditadura, mas tem um parlamento funcionando. Tem várias emissoras de TV e vários jornais, mas todos veiculam apenas o que os donos do poder econômico permitem, e nesse sentido se aproximam da realidade dos EUA que aqui mantém uma de suas principais bases militares. É a capital da mesma Turquia responsável pelo maior genocídio da história há um século, na Armênia, e que massacra os Kurdos na atualidade, sob o manto protetor de seus aliados ocidentais.

Istambul é assim de tudo um pouco. É a capital dos contrastes, das permanências anacrônicas, das contradições, das sínteses imperfeitas decorrentes de sua rica e conturbada história, de uma incomum urbanidade em uma urbe de tal dimensão, onde cristãos e muçulmanos aparentemente coabitam e coexistem com poucos atritos. A invenção de Urbano, o Húngaro, abriu rombos nas muralhas culturais de Istambul que nunca mais foram restauradas por meio das quais transitam valores de lá para cá, daqui para lá, como as águas do mar de Marmara, um pouco Negro, um pouco Mediterrâneo, não separando uma mesma cidade, um país, dois continentes.

Postado por Xixo com fotos de Francisco, inspirado nas conversas com a sensatez da Bárbara.

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