Planejamento

Não podemos afirmar que não planejamos esta viagem, pois tivemos que inúmeros atos preparatórios  que antecederam a partida, entre os quais a leitura de pelo menos 20 livros contanto experiências de “overlanders”, como são conhecidos aqueles que trocam o sedentarismo pelo nomadismo.

Na maioria destes livros há uma ênfase bastante grande no planejamento prévio dos roteiros, das dificuldades, dos desafios previstos para cada etapa da viagem. Não foi o nosso caso. Verdadeiramente definimos somente (i) a data da saida; (ii) o rumo inicial; (iii) alguns pontos que pretendemos visitar; (iv) o destino final; e (v) a data aproximada do término da primeira etapa da viagem.

Optamos, conscientemente, pelo planejamento ao longo da viagem, a cada trecho. Como serão grandes as distâncias a serem percorridas escolhemos aproveitar estas longas horas dentro da “viatura” para planejarmos os dois ou três dias seguintes, mantendo-se alguns poucos parâmetros fixos, como por exemplo, o período de estada em Ushuaia e no Torres Del Paine, locais em que são aconselháveis reservas em hotéis com bastante antecedência. Todo o resto será “planejado” paulatinamente. Não termos, portanto um “planejamento de longo prazo”, nos deteremos no “curtíssimo prazo” para podermos gozar de maior flexibilidade.


Quando é que começa a viagem?

Há diversas maneiras de interpretar o real início de uma viagem. Poderíamos dizer que esta nossa.grande.viagem começou em 28/02/2000 e em 10/04/2001 quando, respectivamente, nasceram Francisco e Bárbara. Desde então não paramos de viajar. Mas já seria “viagem demais”.

Há divergências quanto ao momento em que realmente uma viagem, qualquer que seja, tem seu início.

Para alguns a viagem começa quando uma ideia (de destino) se apresenta como uma necessidade (de partir). Assim, todo o período de planejamento e preparação já pode ser considerado como parte de uma viagem que já começou, pelo menos na subjetividade dos viajantes.

Para outros a viagem começa quando damos a segunda volta na chave da porta de casa e nos dirigimos ao aeroporto, à rodoviária ou quanto tomamos nosso veículo (bicicleta, barco, moto, carro ou jipe).

Há quem defenda que o início da viagem se dá no período do “entre-dois”, naquele tempo crítico em que a viagem já começou, já estamos na estrada, no trecho, mas nossa cabeça ainda está vinculada às relações sociais e ao local de partida. Gramsci identifica a crise como aquele momento em que o velho já morreu e o novo ainda não nasceu. Metaforicamente poderíamos considerar que a viagem começa neste intervalo: não estamos mais onde estávamos, mas ainda não nos desvencilhamos do que deixamos para trás, e, portanto, começamos a viajar.

Para mim a viagem começa, verdadeiramente, quando termina o “entre-dois”, ou seja, quando recupero a autonomia e passo a poder decidir o que quero decidir. Durante o planejamento, nos dias que antecedem a partida, não sou dono do meu tempo e não controlo o que desejo decidir. As decisões se apresentam imperiosas: o que levar na bagagem, quais vacinas, que cuidados médicos e odontológicos tomar, quais equipamentos e que tipo de amortecedores instalar, e assim por diante. Não sou eu quem escolhe decidir, as decisões se apresentam a mim para que escolha entre as distintas e diversas possibilidades. Também ainda não estou viajando verdadeiramente durante os primeiros dias do percurso. Neste período ainda fico pensando no que esqueci, fico telefonando para o escritório ou para amigos com providências que ficaram pendentes, coisas assim.

Para mim a viagem se inicia quando retomo a autonomia, a capacidade de escolher o que realmente importa: onde almoçar, que lugares visitar, que montanhas subir, qual operadora de mergulho contratar, que vinho eleger, onde dormir, quantos quilômetros ainda percorrer naquele dia ou, muito melhor, quanto tempo ficar simplesmente contemplando aquele alvorecer, aquela paisagem ou preguiçosamente esperar pelo crepúsculo apenas para compará-lo com o vislumbrado no final da tarde anterior. Quando passo a ser dono da minha agenda sinto que, efetivamente, estou viajando.

Partiremos de Curitiba no dia 20 de dezembro de 2014. A noite seguinte já será no Uruguai.

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