Haja esquizofrenia!

12715737_1223350177693098_6015362614843373946_nUm certo Wilson Ramos Filho, que advogou por 33 anos em Curitiba, que é professor licenciado da UFPR, estará por um par de semanas no Brasil para (1) compromissos profissionais; (2) banca de mestrado da Larissa Alfaro; (3) compromissos acadêmicos em três faculdades; (4) para rever sua mãe, seus irmãos e sobrinhos, e seus amigos; e, dentre outras coisas (5) para um lançamento de livro no dia primeiro de março.

Fran e Bá voltarão a ser Francisco e Bárbara Van Steen Proner Ramos, para cursarem respectivamente o segundo e o primeiro ano do ensino médio no Rio de Janeiro. Voltarão para a Nossa Grande Viagem somente nas férias escolares em julho.

O pai de ambos voltará a Istambul onde a Lola está estacionada no início de março, para atravessar os países menos conhecidos da maioria das pessoas, sozinho por razões óbvias: Geórgia, Azerbaijão, Armênia, Irã e Turquemenistão, não necessariamente nesta ordem.

Quem voltará para a nossa grande viagem será o Xixo, um piá quiteriano, de um bairro periférico de Curitiba, que aos 56 anos decidiu ser feliz, dar a volta ao mundo de carro enquanto tenta compreender em que transformaram o planeta e em que querem transformar o Brasil.
Esse sujeito, por não conseguir ficar longe do Fran e da Bá, a cada dois ou três meses, retornará ao Brasil, como seu avatar, aquele que um dia escreveu um livro chamado DIREITO CAPITALISTA DO TRABALHO (LTr, 2012) e que vez ou outra tem um artigo publicado por generosidade dos amigos.

Frases da Bá:

1) “As coisas só precisavam ter dois gostos. Um deles, Nutella. O outro, podia ser gosto de pão”;

2) “vamos estabelecer um critério para saber quem senta no banco da frente: a lógica ou quem chegar primeiro. Sempre que chega primeiro o Fran diz que o lugar é dele porque foi mais rápido. Se eu chego antes ele argumenta com a lógica, porque vai fotografar, altera o critério. Eu topo qualquer critério, desde que seja sempre o mesmo!”

A frase que Xixo e Fran mais disseram durante os 13 meses de viagem, até agora: “A Bá tem razão”. Assim é. A alegria de Nossa Grande Viagem.

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Contradições, contrastes, desenvolvimento e permanências.

em Istambul.

No lugar estratégico, no estreito Bósforo entre Europa e Ásia, as relações comerciais permitiram o surgimento da Bizâncio, mais tarde Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, séculos depois capital do Império Otomano, já como Istambul.

E foi capital do mundo, por uma estranha relação de interesse psicanalitico. Constantino, o Imperador Romano, resolveu mudar para Bizâncio a capital do Império no ano 330 de Nossa Era, em homenagem à sua mãe, Helena, nascida em território ainda hoje Turco e falecida lá na volta de uma de suas frequentes viagens a Jerusalém (onde coordenava a construção da Igreja do Santo Sepúlcro). Cristã, se atribui principalmente a ela a decisão de tirar o cristianismo da clandestinidade, com o Edito de Milão, em 313. Mais tarde Helena foi canonizada e com seu nome foi batizada a ilha onde outro Imperador, Napoleão, foi exilado e onde morreu. Mas esta é outra história. Muitos anos antes, outra Helena causou uma guerra em outra cidade próxima à atual Istambul, quando a escultura de um cavalo gigantesco passou à posteridade, mas esta também é outra história.

Um mau-caráter húngaro especialista em fundir canhões em 1450 mudou de lado, bandeou-se para quem pagava mais. De assessor do soberano cristão de Constantinopla o trânsfuga vendeu seus saberes aos otomanos que assediavam a até então inexpugnável cidade havia séculos. Chamado Urbano este sujeito fabricou um canhão tão possante que abriu rombos nas enormes muralhas e possibilitou a troca de poder político na mais importante cidade do mundo nos últimos dias de maio de 1453, fechando a “rota da seda”, interrompendo o comércio internacional com o oriente. Desde então o substantivo feminino urbanidade só tem sentido se desvinculado da referência ao canhoeiro húngaro ou ao papas que escolheram serem chamados por Urbano, qualquer dos oito que lideraram o Vaticano durante a Idade Média, com a possível exceção a Urbano VII, assassinado pelos seus opositores na Santa Madre aos 12 dias de pontificado, pela sua falta de tempo para demonstrar toda a sua misericórdia cristã como haviam feito seus antecessores durante a Inquisição, então em seu auge.

A queda de Constantinopla, ao inibir o comércio com o oriente, já que a rota do Cáucaso (destino de Nossa Grande Viagem no primeiro semestre de 2016) era complicada desde aquela época, instigou os Ibéricos a buscarem uma nova rota para as Índias, para o oriente das especiarias que movimentavam o capitalismo nascente. Se os turcos não tivessem conquistado Constantinopla os portugueses e os espanhóis não teriam partido para as Grandes Navegações e talvez a invasão das Américas tivesse tardado um século ou dois. A história da humanidade, a vida e morte de milhões de indígenas no continente “descoberto” por Colombo e a história da América desde então decorreram da troca de poder nesta esquina do planeta em 1453, que em poucas décadas consolidaria o fim Idade Média, decompondo a cosmovisão até então dominante, no Oriente e no Ocidente.

A Istambul de hoje é a síntese de sua história. Metade da cidade conurbada com 14 milhões de habitantes está na Europa, metade na Ásia, meio ocidental, meio oriental, é arcaica e moderna, atrasada e desenvolvida, bárbara e civilizada. É muçulmana e é cristã (ortodoxa, mas cristã). Aqui se encontram permanências inacreditáveis (sufistas, muçulmanos contemplativos e islamitas tão arcaicos e medievais como os cristãos ortodoxos ou como os pentescontais) e posmodernidades de diversos matizes. Arranha-céus dubainianos, edifícios espelhados de gosto duvidoso, relações de trabalho pós-modernas ainda mais exploradoras que as resilientes estruturas corporativas, astesãns, précapitalistas. É neoliberal e é medieval, como se lhe faltasse na história a Modernidade institucional, criadora e respeitadora de direitos sociais e liberdades públicas.
É ditadura, mas tem um parlamento funcionando. Tem várias emissoras de TV e vários jornais, mas todos veiculam apenas o que os donos do poder econômico permitem, e nesse sentido se aproximam da realidade dos EUA que aqui mantém uma de suas principais bases militares. É a capital da mesma Turquia responsável pelo maior genocídio da história há um século, na Armênia, e que massacra os Kurdos na atualidade, sob o manto protetor de seus aliados ocidentais.

Istambul é assim de tudo um pouco. É a capital dos contrastes, das permanências anacrônicas, das contradições, das sínteses imperfeitas decorrentes de sua rica e conturbada história, de uma incomum urbanidade em uma urbe de tal dimensão, onde cristãos e muçulmanos aparentemente coabitam e coexistem com poucos atritos. A invenção de Urbano, o Húngaro, abriu rombos nas muralhas culturais de Istambul que nunca mais foram restauradas por meio das quais transitam valores de lá para cá, daqui para lá, como as águas do mar de Marmara, um pouco Negro, um pouco Mediterrâneo, não separando uma mesma cidade, um país, dois continentes.

Postado por Xixo com fotos de Francisco, inspirado nas conversas com a sensatez da Bárbara.

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Carnaval na Estrada é diferente.

O nosso está sendo em Istambul. Temos saudades? Vamos voltar a morar no Brasil ou em qualquer outro lugar? Viramos ciganos, zíngaros, estamos condenados a nunca mais deixarmos o nomadismo? Condenados como Caim, o nômade fraticida, ao desterro eterno? Nunca terminará essa Nossa Grande Viagem?

Quando nos colocam essas questões respondemos com o laconismo que só a poesia permite. E com Cartola.
De todas, prefiro esta interpretação.

Capadócia.

em Capadocia – Turquia.

Por aqui passava a Rota da Seda que trazia produtos orientais para a Velha Europa enquanto os Ottomanos não haviam conquistado Constantinopla em 1453, e todos se encantavam com a quantidade de pessoas vivendo em casas escavadas nas areníticas montanhas de formatos bizarros, nos subsolos, com até nove andares subterrâneos.

Fizemos o que todos os turistas fazem: um passeio de balão ao amanhecer. Indescritível. Nem vamos tentar traduzir em palavras o que nem as fotos do Fran dão conta de retratar.

Com um guia local super qualificado tivemos uma verdadeira aula de história desta região, Anatólia, enquanto tentávamos explicar a ele a confusão que os ibéricos fizeram ao utilizar-se do mito turco para nomear o Amazonas. As daqui comporiam uma tribo de mulheres guerreiras que viviam ao norte da Capadócia, em algum lugar ainda não identificado pelos arqueólogos, e que periodicamente invadia essas paragens em busca de homens “para tirar cria”, para servirem de escravos sexuais. Segundo o mito ottomano depois de usados esses escravos eram sacrificados no mesmo altar em que as Amazonas imolavam seus filhos varões, só as meninas sobreviam. Mas mesmo estas não tinham moleza: na puberdade tinham um de seus seios extirpados para que, guerreiras, pudessem melhor se utilizar de seus arcos e flexas.
Tentamos explicar ao guia turístico que há duas teorias para o nome da floresta rasgada pelo Rio Amazonas: uma sustenta que os indígenas cabeludos teriam sido confundidos com mulheres (o que, convenhamos, é difícil de engolir, até porque não cavalgavam); outra, que sugere que em uma das línguas locais a expressão “rio que engole barcos” soaria como “amazona” e que tal similaridade fonética tivesse sido utilizada para assustar eventuais aventureiros anglo-saxões, flamengos ou franceses que estivessem pensando em por ali se instalar. Não sei qual versão ele preferiu.

Assim como as tais amazonas indígenas ribeirinhas, também as daqui desta região não teriam deixado evidências de sua real existência.

O certo é que quem vier para cá, podendo, não deve deixar de tentar fazer um passeio de balão.

Postado por Xixo com fotos de Francisco.

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Agora começa a chatice dos vistos para os países asiáticos.

em Istambul, Turkia.

12651213_744268205715568_8938649476017506414_nTemos recebido informações desencontradas.

Alguns dizem que brasileiros não precisam de visto para Armênia, Azerbaijão e Geórgia. Outros, ao contrário, juram serem necessários. Alguém tem informações recentes e confiáveis?

Enquanto isso nos divertimos tirando o visto para o Irã.

As aventuras e as desventuras como contrafaces de si mesmas.

Nem tudo dá sempre certo. Quando chegamos à fronteira da Turquia colocaram um carimbo em nossos passaportes identificando que havíamos entrado de carro, por fronteira seca, vindos da Grécia.

Na janelinha seguinte o agente aduaneiro fez sinal para que esperássemos ali e foi até a parte traseira da Lola. Minutos depois, exagerado e emocionado, o sujeito começou a gesticular nervosamente. Para nosso espanto apontava para placa da Lola e repetia palavras que não alcançávamos decifrar!

Não era nada grave, apenas em turco chamava seus colegas para constatarem: o carro era da cidade do Alex de Souza!!! E todos falando ao mesmo tempo perguntavam novidades do Alex, do Alex deles, do Alex que fez mais sucesso na Turquia do que na sua Curitiba. Como somos atleticanos dissemos que nem sabíamos de quem se tratava!

Mentira. Contamos que estava muito bem, que o Alex alvi-verde havia se tornado treinador (sem grande sucesso, é verdade) e, preferindo a meia-verdade contamos que seu time do coração havia sido campeão! Não mentimos! De tão felizes foram enfáticos ao nos recomendar que não deveríamos tentar sair da Turquia sem o carro, já que isso não seria permitido.

Lembrei na hora das dificuldades enfrentadas por Sérgio e Eleni do Projeto Mundo-cão na Colombia. Quando as autoridades souberam que haviam deixado o carro quando foram ao Brasil de avião, ficaram muito irritados. Antes de conseguirem embarcar a Land deles para o Panamá tiveram que superar dificuldades burocráticas e sofreram muitos incômodos por causa disso.

Dentro de alguns dias vamos embarcar para Paris, de avião, e de lá iremos ao Brasil, para o início das aulas de Fran e Bá.

Por conta do dito carimbo identificando o ingresso na Turquia por terra certamente teríamos que nos explicar, pois poderiam não nos deixar sair do país sem o carro. Havia um possível entrave a ser enfrentado.

Em alguns relatos de viagem os problemas raramente aparecem, como se as perambulações em países estrangeiros não tivessem os presumíveis contratempos, omite-se ser frequente a mudança de planos e as frustrações em face do que se havia imaginado. A vida não é assim: como todos os que agora nos leem também temos que contornar dificuldades, que superar obstáculos, que alterar constantemente os planos. A vida na estrada para alguns é – artificialmente -sempre rósea, um mero comemorar tantos meses e dias de viagem, uma quilometragem redonda, um novo país visitado, como se as fronteiras fossem apenas o prenúncio de nova tachinha espetada no velho mapa emoldurado por uma familiar parede e não, também, motivos de apreensão e fontes de aporrinhações diversas.

Como na vida de todos, de cada um de nós, no sofá ou na estrada, se faz necessária a antecipação, a adoção medidas preventivas, contigenciando expectativas e prevenindo possíveis enroscos decorrentes da Lei de Murphy.

Para evitar tudo isso fomos com alguns dias de antecedência ao aeroporto em Istambul para reportar nossa situação aos agentes aduaneiros que, gentilmente, nos orientaram a fazer um requerimento para deixarmos a Land aqui na Turquia enquanto seu motorista estiver fora do país.

Todavia não pudemos fazer isso imediatamente,pois exigem cópia do check-in do voo internacional (entre outros documentos) para tramitarem a papelada.

Prometem que não demorará muito. Por via das dúvidas faremos o check-in no dia da partida com 5 horas de antecedência. Perdemos o dia e a paciência várias vezes durante este dia. Para se ter uma idéia tivemos que ir do aeroporto do lado asiático ao aeroporto do lado europeu. Foram duas horas para rodar 56 km por dentro de Istambul, uma cidade que lembra São Paulo, em tamanho e no trânsito que, de tão travado, possibilita fonte de renda para dezenas de ambulantes oferecendo pretzel e água. Mas, como sempre, deu tudo certo no final.

O carro, já decidimos, ficará no estacionamento do aeroporto europeu de Istambul enquanto Xixo estiver no Brasil, pelo prazo máximo de 30 dias (um mês, para voltar, a partir do embarque).

No início de março, de volta à Turquia, é que decidiremos por onde continuará a Nossa Grande Viagem: se iremos diretamente ao Irã, se passaremos na Armênia, na Geórgia e no Azerbaijão antes de irmos embora para Pasárgada, para Persépolis e para a atual capital da antiga Pérsia.

Postado por Xixo, com fotos de Francisco.

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Meteora: reflexões e saudosismos musicais

em Metéora.

Na região centro-norte da Grécia não insular um acidente geográfico possibilitou um legado cultural, arquitetônico, histórico.
Trata-se de Meteora, que em grego significa “pedra suspensa no ar”, blowin’ in the wind, como na balada de Bob Dylan.

Trata-se de um conjunto de monolitos, enormes pedras de arenito que aparentemente brotam do chão, íngremes, verticais, elevando-se a 400 ou 500 metros em um vale cercado de montanhas com neves eternas.

Neste lugar, há quase dois mil anos, heremitas se instalaram, mas foi no final de 1400 que, temendo os Otomanos, algumas ordens religiosas se aboletaram em seus cumes inexpugnáveis. Quando a América foi invadida pelos cristãos – um continente inteiro não mencionado pela bíblia, habitado por milhares de seres humanos que não eram nem cristãos, nem muçulmanos, e que absurdamente aparentavam a felicidade dos que não nascem culpados – e quando foi contrariada a versão cristã de que a terra era um tabuleiro, quando o planeta foi contornado em circunavegação, nestes mosteiros à custa de muita genuflexão seus intérpretes e portavozes se tornaram ainda mais ortodoxos, encobrindo a razão com o sagrado manto da fé. E seguiram erigindo mosteiros onde se refugiavam das conclusões racionais.

O acesso aos mosteiros encarapitados nas pontas se dá por buracos abertos a certa altura da pedra e por estreitas escadas esculpidas em suas laterais que em irregular caracol conduzem ao topo.

No total já foram 20 os mosteiros assim edificados. Hoje restam 6, dois dos quais exclusivamente femininos, de religiosos “ortodoxos”, daquela parte dos católicos que foi expulsa da Igreja em 1054, por não acatarem a determinação de que rezassem missas exclusivamente em latim e que obedecessem o infalível papa, sem questionamentos.

Embora mínimas as diferenças teológicas (o formato da cruz em que Jesus teria sido crucificado, por exemplo) eles seguem ainda mais medievais que os demais. Para adentrar aos mosteiros se exige de mulheres o uso de saias ou vestidos. Por três euros, preço do ingresso, saias para vestir por cima da roupa ficam à disposição para as moças e senhoras que insistem em se vestir como homens, com calças compridas.
Mas vale a pena. São ortodoxos, medievais, arcaicos. E têm o direito de serem assim (desde que não queiram impor seus mitos, preconceitos, sua fé e seus rituais aos demais. Se fizessem isso seriam chatos, antes de serem fundamentalistas).
Nas viagens aprendemos sempre a respeitar, a tentar entender, e a refletir sobre quanto tempo terá que passar, quantas estradas teremos que percorrer, quantas pessoas terão que morrer até que possamos ouvir, ver e sentir o que realmente importa sem recorrermos a obscurantismos.

Os altos de Meteora convidam à reflexão nestes tempos em que pessoas são discriminadas por não terem papéis que as autorizem a circular pelas ruas, a trabalhar, a viver nos países que, capitalistas, juram cultuar a liberdade e que, cristãos, asseguram apregoar a misericórdia e a solidariedade.
Onde estará a resposta?

BLOWIN’ IN THE WIND

How many roads must a man walk down
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she can sleep in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly
Before they’re forever banned?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Yes and how many years can a mountain exist
Before it’s washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist
Before they’re allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head
Pretend that he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Yeah and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind?

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Luz no firmamento mais um mito, uma lenda, legenda.

12647079_741689209306801_8772016190505970943_nNossa homenagem às nunca velhas Defender.

Photo by Francisco Proner Ramos

Cabriteiros nas montanhas albanesas e nas memórias reformistas.

em Jale, Himare, Albania.

No movimento estudantil das décadas de setenta, início dos oitenta, os militantes do PCdoB eram chamados de “tribuneiros” (vendiam um jornal chamado Tribuna da Luta Operária) ou de “cabriteiros”, por apoiarem o “farol do socialismo”, o tipo de comunismo então existente na Albânia.

Eu vendia outro jornal (A voz da Unidade), mas sempre tive curiosidade de conhecer a pátria de Enver Hoxha, o Secretário Geral do Partido Comunista Albanês.

Era uma figura: nos anos 30 foi viver na França, estudou Filosofia e Direito. Voltando para a Albânia, dando aulas de francês, foi demitido da escola por se negar a filiar-se ao partido fascista. Organizou o Partido Comunista na clandestinidade. Depois da derrota dos fascistas na Segunda Guerra, aproveitando que o empresariado local (majoritariamente fascista) estava desorientado, os comunistas assumiram o poder.

A Albânia sempre quis ser autônoma. Não aceitou integrar a União Soviética e negou-se a integrar a Federação Yuguslava, de quem temia invasão. Construíram 750 casamatas, nas cidades, nas montanhas e até no mar, para se defenderem de ataques aéreos. Nenhum desses “bunkers”, que estão em todos os lugares, foi jamais utilizado!

Em 1961, depois da morte de Stalin portanto, a Albânia rompeu com a URSS. E logo depois alguns filiados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) romperam com a direção e, sob a liderança de João Amazonas, fundou-se o PCdoB, de “linha albanesa”, criticando a URSS, aproximando-se da “via chinesa”. Foi o que bastou, viraram “cabriteiros” e “maoístas”. A esquerda adorava rotular.

A Albânia permaneceu rural, pouco industrializada, autossuficiente e pobre, muito pobre.

De todos os países balcânicos é o menos desenvolvido, lembrando muitas vezes Honduras ou o Kenya. A recente diferenciação entres as classes sociais propiciou o surgimento de uma arquitetura brega, “kitsch”, com vidros espelhados, detalhes dourados e espiraladas escadas aparentes, enfeiando as cidades. Uma pena.

O litoral sul, a “riviera albanesa” vale a viagem onde ainda se preservam as características rurais e as relações sociais menos assimétricas, rurículas, simples, montanhesas.

Um cabriteiro certamente poderia observar que sigo sendo “reformista”, moderado, até nas críticas. Pois é.

Montenegro, um país que se respeita. Parabéns!

em Kotor.

Não existia esse país. Em 2006 fizeram um referendum e tinham certeza de que a maioria da população iria preferir continuar a fazer parte da Sérvia. A União Europeia também estava segura de que não haveria a criação de um novo país na Europa. Colocou um limite: só reconheceria o resultado se mais de 55% votassem pelo “sim”, pela autonomia de Montenegro.
Terminou que os favoráveis à independência de Montenegro foram 55,5% dos eleitores !
E o que fizeram os derrotados? Ficaram defendendo um golpe, um “impítima”, uma “intervenção militar”? Não. Claro que não! Não pagariam esse mico! Não querem que seu país seja uma “república de bananas”. Os que perderam a eleição por 0,5% se conformaram. Não fizeram papel ridículo. E a Europa ganhou um novo país.
Lindo! Montanhas, litoral recortado, ruínas de castelos, mas também desenvolvimento, estabilidade institucional, respeito pelas “regras do jogo”.

Há em Montenegro as medievais Kotor e Budva. E há também o Porto Montenegro, que lembra Monte Carlo em sofisticação e em beleza.
Adoramos Montenegro, um país que se respeita!
Por quase 400 anos integrou a República de Veneza, depois foi dominada pelos Otomanos, pelos Austro-Húngaros, pelos sérvios. E agora é um país que usa o Euro, mas que talvez não queira integrar a União Europeia. E tem razões para isso. Conquistou a independência, por que se subordinaria à Alemanha?
Em Montenegro fomos felizes, encontramos Renan e Paula do Outsiders Brazil e comemoramos os 39 anos dele, com cabrito, com bolo de cenoura e parabéns-prá-você. Estávamos em casa.

Postado por Xixo, com fotos de Francisco.

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Dubrovinik, a Ragusa, a “pérola do Adriático”.

em Dubronik – Croatia.

Dubrovnik fundada no século V de nossa era sobreviveu a quinze séculos, com base no comércio. Com o nome de Ragusa (até hoje aparece assim em algus GPS e mapas ocidentais) constituiu-se na segunda mais importante cidade no Mar Adriático. A outra era Veneza na época medieval.
Mesmo quando os otomanos conquistaram toda a região, por acordo diplomático, a cidade permaneceu cristã, para que os negócios não fossem prejudicados.
Conquistada por Napoleão, pouco depois foi incorporada inicialmente ao Império Austro-Húngaro enquanto este existiu (até 1918) e finalmente à Croácia independente e com ela à Yauguslávia. Na Guerra dos Balcãs houve quem sonhasse com seu restabelecimento como cidade-Estado, como Ragusa, na idade média. Na disputa com a Sérvia-Montenegro a Croácia venceu. Hoje somente 3% da população da cidade é sérvia ou montenegrina. Os demais, os que perderam a guerra neste enclave croata, tiveram que se mudar.

Uma curiosidade: há uma descontinuidade no território croata. Do norte, onde se localiza Zagreb, a capital, até quase chegar em Dubrovnik, tudo é território Croata, no Adriático. Depois, na franja litorânea, há uma faixa que integra o território da Bósnia-Herzegovina, por poucos quilômetros, depois o litoral volta a integrar a Croácia até a fronteira com Montenegro, ao sul. Um croata do norte tem que sair de seu país, por alguns quilômetros de Bósnia-Herzegovina, para então retornar ao seu próprio território. Esta bizarrice decorreu dos acordos que puseram fim à guerra.

Na outra experiência histórica conhecida, o corredor que dava acesso da Polônia ao Mar do Norte, os alemães não se conformaram com esta imposição dos vencedores da Grande Guerra, não suportavam a idéia de ter que mostrar passaporte dos dois lados da faixa territorial outorgada aos eslavos. Deu no que deu. Mas aqui aparentemente as pessoas consideraram razoável esta solução.

Destruída pela Guerra dos Balcãs a cidade se reergueu, está sendo ainda restaurada depois que um em cada três imóveis dentro das muralhas foi atingido pela artilharia da Sérvia e de Montenegro. Mas algo perdeu, não sei exatamente o que, mas senti que a cidade já não é o que costumava ser. Será que há outras pessoas que pensam como eu?

Postado por Xixo
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O Putin também não ajuda!

Estamos a caminho de Istambul. Como a fronteira leste da Ucrânia está muito conturbada e como a Chechênia na Rússia sempre é instável, pareceu-nos mais adequado sairmos da Europa por baixo do Mar Negro, passando pela Capadócia, para chegar na Armênia e Geórgia.
Agora essa!
Percebem como não dá para planejar muito? A decisão final da rota centro-asiática vai acabar ficando para março.
Mas a Istambul não renunciaremos, nem venha Vladmir!

Cicatrizes: nas pessoas, nos edifícios, nos padrões civilizatórios e nas instituições.

em Mostar – Bosnia and Herzegovinia.

A guerra dos balcãs na civilizada Europa, na última década do século XX, ainda exibe suas cicatrizes na região.

É verdade que a Yuguslávia (terra dos eslavos do sul) sempre foi uma abstração, uma ficção. Ao final da Grande Guerra (iniciada precisamente pelo Império Autro-Húngaro contra a Sérvia) constituiu-se um Reino a unificar seis países em uma federação pan-eslava, no sul da Europa. Uma unidade complexa: dois alfabetos distintos, três grandes religiões (ortodoxos, católicos e muçulmanos), três línguas (esloveno, sérvio e macedônio) e inúmeros dialetos sob o domínio do monarca sérvio, em uma região que até o início do século XX era dominada majoritariamente pelo Império Otomano.

No final da Segunda Guerra todos os países da região (exceto Turquia e Grécia) se convertem em repúblicas socialistas, na nova Yuguslávia (somente a Albânia se manteve independente, embora também socialista), comandada pelo Marechal Tito que, com um governo totalitário, manteve a unidade do país federado.

Depois da morte de Tito, e com o debacle do Bloco Soviético, a Yuguslávia se dissolveu. As ricas Eslovênia, ao norte, e Croácia a oeste, se declaram independentes. O poder central reage com violência e abandona a Eslovênia para se concentrar na Croácia. Em seguida a Bósnia declara também sua independência, apoiada pela Croácia e por vários países ocidentais.

De 1992 a 1995 a Bósnia foi destruída pelas forças da Sérvia (que alegava querer proteger os sérvios que viviam na Bósnia da tentativa de limpeza étnica pretendida pelos Bósnios, para expulsá-los de lá) e da Croácia, com requintes de crueldade. Para atemorizar os inimigos a tática das violações de mulheres e crianças foi utilizada pelas duas forças em conflito. O resultado foi um enorme êxodo, com mais de um milhão de pessoas de origem sérvia tendo que abandonar a Bósnia.

Até hoje se vêem as marcas da guerra nos edifícios, tanto em Sarajevo, atual capital da Bósnia-Herzegovina, quanto nas cidades do interior. Edifícios parcialemente destruídos, outros com as fachadas esburacadas por terem sido metralhadas. Se nos prédios se veem as marcas, imagine-se a quantidade de sequelas psicológicas decorrentes das mais de 50.000 mulheres de várias idades que comprovadamente foram violadas pelos exércitos dos dois lados inicialmente e, mais tarde, pelas tropas estadunidenses (estima-se que militares dos EUA tenham praticado mais de seis mil estupros).

A paz só foi alcançada em 1995 entre a Sérvia e a Bósnia. Mas os Balcãs não foram integralmente pacificados. Tendo perdido a Eslováquia, a Croácia e a Bósnia Herzegovina, o governo sérvio comandado por um militar psicopata chamado Milesovic decidiu impedir de todos os modos a independência de Kosovo, um território encrustrado entre a Bulgária, a Macedônia e a Albânia no sul da Sérvia. Novamente, para dissuadir os rebeldes kosovares, os exércitos sérvios se utilizaram das violações massivas das mulheres (de todas as idades, desde crianças com poucos até velhas com muitos anos de vida) e bombardeios às regiões pretensamente dominadas pelos rebeldes independentistas, com fortes componentes religiosos a legitimarem atrocidades.

De modo ilegal contrário ao Direito Internacional, sem a autorização da ONU ou da União Europeia, sob a liderança dos EUA, a aliança militar ocidental, a OTAN, invadiu região. Não satisfeitos os EUA e seus aliados empresários sérvios influenciaram as eleições, derrotando Milosevic. Além disso, chantegearam o governo eleito a prendê-lo e enviá-lo para ser julgado em Haya, por um tribunal excepcional criado especialmente para condená-lo. Sim, os EUA condicionaram auxílio financeiro para a reconstrução da Sérvia à entrega do ex-governante para ser julgado por uma Corte Internacional. O curioso é que os EUA não aceitam a jurisdição de nenhuma Corte internacional, nem do Tribunal Penal Internacional, nem da Corte Internacional de Justiça.

A ponte histórica construida pelos otomanos em 1557 foi bombardeada pelas forças bósnio-croatas em 1993. A atual “ponte velha” é novinha, reconstruida com dinheiro da Europa, da mesma Europa que forneceu as armas à Croácia e as bombas que a destruiram.

As marcas da guerra da Bósnia, dos interesses econômicos envolvidos, e as cicatrizes no Direito Internacional seguem aqui, por todos os cantos, como que a demonstrar a falta de efetividade da ordem jurídica internacional.

Postado por Xixo com fotos de Francisco

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Não podemos nos refugiar de nossas consciências.

em Preševo.

Temos alguma dificuldade para expressar nossas reflexões quando nos invadem fortes emoções.
Quando vejo alguém defendendo o “direito” a discriminar, a impor condições desumanas, a explorar, a bombardear o território de outro país, a impedir ou a dificultar a imigração de desgraçados pelas guerras criadas, fomentadas e desenvolvidas pelos governos dos países ocidentais, perco a paciência. Não consigo argumentar com cretinos que consideram que a Europa teria o “direito” a não aceitar refugiados, famílias inteiras que tiveram que abandonar tudo em decorrência das guerras promovidas pelas potências europeias e pelos EUA para defender os interesses das empresas petrolíferas e armamentistas ocidentais.
A quantidade de argumentos que me ocorrem é tamanha que nem sei por onde começar. E, curiosamente, fico travado. Não consigo argumentar por não acreditar que meu obtuso interlocutor possa mudar de opinião. Se o imbecil acredita mesmo que a Europa teria o direito a submeter aquelas milhares de pessoas a tamanha humilhação, penúria, desespero, não acredito ser possível fazer com que mude de opinião.
Curioso isso. Passei minha vida profissional toda dependendo dos argumentos e acreditando na capacidade argumentativa para se restaurar a justiça. Advoguei por 33 anos porque sempre acreditei no diálogo, no consenso progressivo, no debate racional para demover resistências ou, no limite, para convencer o Judiciário a impor decisões aos que não se convenciam.

Mas neste assunto – e em outros que envolvem temas humanitários – não acredito no convencimento, no poder da argumentação. Tenho para mim que quem não se indigna em face da iniquidade, quem não se solidariza sozinho quando confrontado com situações como às dos refugiados, age assim por um defeito de caráter ou por um bloqueio de natureza ideológica que os impede, sempre os impedirá, de serem convencidos com argumentos racionais.

Não consigo sequer descrever nosso estado emocional quando deixamos o Campo de Refugiados que visitamos no sul da Sérvia. Estávamos tão abalados que ficamos silentes por vários quilômetros, pensando, antes que pudéssemos racionalizar a experiência e organizar algumas conclusões provisórias, testadas nos debates que tivemos dentro da Lola.

São milhares de famílias que tiveram que abandonar tudo o que tinham, suas casas, seus amigos e familiares, suas referências geográficas, culturais, históricas, tiveram que abandonar seus mortos por conta de uma “racionalidade” econômica torta. Ao chegarem a um campo de refugiados essas pessoas tentam obter papéis autorizativos de circulação no território europeu. Chegam sem nada, com muito pouco.

Uma legião de jovens voluntários vinculados a ONGs, algumas das quais internacionais, e aos poderes públicos locais, tenta organizar este êxodo, fornecendo-lhes comida, roupas usadas mais apropridas às gélidas temperaturas inferiores a menos dez graus centígrados, hospedagem em barracas precárias até que se consiga transporte adequado, atendimento médico e psicológico a quem mais necessite, e, obviamente os almejados papéis que haverão de servir no futuro para a regularização migratória.

Até onde pudemos constatar a polícia sérvia, muito presente, atuava condignamente, de maneira adequada. Apesar da tensão permanente os policiais com quem conversamos foram educados e firmes. Restringiram nossa circulação em algumas áreas, proibiram o Fran de fotografar o que se passava, não deixaram que a Bá conversasse com todas as crianças a quem queria emprestar algum carinho, oferecer um sorriso ou um simples abraço. Mas não foram grosseiros.

Todavia, até que recebêssemos o comando concreto para não fotografarmos, o Fran já tinha conseguido alguns registros, algumas imagens.

Deixamos àquelas pessoas uma sacola de roupas quentes, nossas, que vínhamos usando, que nos sobravam, alguns sorrisos, nosso respeito. Elas deixaram conosco algo muito mais valioso: a consciência de que algo está muito errado, de que nossa sociedade necessita uma profunda transformação para que desastres humanitários como estes não voltem a acontecer. Recebemos muito mais do lhes deixamos.

Pensamos com pesar naquelas passeatas com milhares de alemães, parte deles também imigrantes ou filhos de pessoas que puderam imigrar anos atrás, exigindo o fechamento das fronteiras aos novos imigrantes, a pessoas pobres, a miseráveis, mas também a profissionais gabaritados. A justificativa? Preservar os empregos de quem chegou antes ou que, por sorte, nasceu naquele território. Pensamos entristecidos nas notícias de violações sexuais a mulheres migrantes e nas crescentes restrições nos países considerados “portas de entrada” às vítimas da guerra em que os governos e empresas estrangeiros resolveram se envolver. E pensamos, consternados, na situação dos imigrantes, dos refugiados que temos no Brasil, majoritariamente haitianos e africanos, mas também alguns sírios e de outras nacionalidades do Oriente Médio, alguns dos quais vítimas de preconceito racial ou de classe, por serem pobres.

Não saímos deste Campo de Refugiados na Sérvia da mesma forma como entramos. Saímos de lá muito melhores, mais conscientes e mais comprometidos com a superação das condições objetivas que estão na origem, na gênese, das injustiças da qual fomos testemunhas, que vivenciamos a cada dia lendo jornais. De nossa consciência não nos refugiaremos, não nos refugiaremos.

Postado por Xixo
Fotos do Francisco

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Há exatos 13 meses iniciamos Nossa Grande Viagem. Mais que estatísticas, vivências, emoções e aprendizados.

em Sérvia

Saímos na madrugada do dia 21 de dezembro de 2014 em direção a nós mesmos e hoje já somos mais de 25 mil pessoas nesta viagem. Quando o dia amanheceu hoje tivemos vontade de comemorar.

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Depois das viagens nunca seremos os mesmos. Não mesmo.

em Pristina, Republic of Kosovo.

Sabem aquela situação de desespero por conseguir um trabalho, qualquer trabalho, para poder levar algum dinheiro para casa? Já vivemos isso no Brasil, principalmente durante a década de noventa, a década perdida, onde a renda foi concentrada nas elites. Hoje, como simulacro, só na situação dos “chapas” aqueles que ficam nos trevos de acesso das cidades disponiveis para a descarga de caminhões. Mas mesmo estes hoje, no Brasil, colocam preço no seu trabalho.

Nos filmes sobre as condições de trabalho no século XIX ou durante a crise capitalista de 1929 se vêem pessoas nas ruas disponíveis para qualquer trabalho, pessoas que não possuem nada além das suas forças de trabalho, que vendem a força de trabalho, para qualquer trabalho.

Hoje tivemos uma experiência parecida.

Ao sairmos da Macedônia sobraram algumas notas da moeda local. Não era pouco dinheiro, aproximadamente 50 euros. Em Kosovo teríamos que converter esse valor novamente. Fomos a 3 bancos e nada. Não trocavam moeda da Macedônia.

Perguntando nas ruas, uma boa alma nos indicou uma esquina onde encontraríamos pessoas que se dedicam ao câmbio de qualquer moeda. Depois de vinte minutos caminhando chegamos a uma esquina que parecia ser a indicada. Do lado de lá da rua havia umas duas dezenas de homens maduros, mãos nos bolsos para se protegerem do frio de menos de 15 graus negativos. Enquanto esperávamos o semáforo abrir para pedestres um daqueles senhores, empinando seguidamente nariz e queixo acenava para nós. Inadvertidamente fiz o gesto que me parecia internacional esfregando polegar e indicador, indicando “dinheiro”.

Foi o que bastou, duas dezenas de homens atravessaram correndo a rua, em meio ao trãnsito e nos cercaram falando todos ao mesmo tempo. Sem entendermos o que se passava arriscávamos em inglês, francês e em espanhol, explicar que queríamos fazer câmbio de divisas. Inútil! Todos se ofereciam, mostravam disposição e músculos, para qualquer trabalho. Foram três ou quatro minutos muito tensos. Recuando até uma escadaria, subimos quatro degraus e aos gritos repetíamos que queríamos cambiar, to chage, changer, trocar dinheiro, só isso.

Foi triste ver as caras de decepção quando, um a um, iam se dando conta de que não oferecíamos trabalho.

Como que vindo do além apareceu um enorme sujeito com um maço de dinheiro, chacoalhando. Trocamos o que tínhamos que trocar, agradecemos a todos, nos despedimos e voltamos por onde havíamos ido. Mas já não éramos os mesmos. Não mesmo.

Fomos confrontados com o talvez mais perverso efeito da intervenção humanitária ilegal dos EUA (e seus aliados, principalmente o UK) na região. A pobreza em Kosovo é maior, mais brutal e cruel que em qualquer outro país balcânico. Em todo o país, ainda não reconhecido pelo Brasil (nem pela China ou pela Rússia) , nos surpreendemos com a pobreza, com a concentração de renda em uma diminuta parcela da sociedade, e com a quantidade de igrejas, de mesquitas e de policiais nas ruas.

Foi inevitável a constatação de que o capitalismo em sua versão neoliberal é muito parecido com o capitalismo do liberalismo decimonônico.

Experimentaremos novamente a reação havida no início do século XX em face da iniquidade? Talvez não. Talvez não, mesmo. O capitalismo já não é o mesmo, as formas de resistência já não são as mesmas. Não mesmo.

Postado por Xixo
Fotos de Francisco

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A capital da Macedônia é contraditória.

Skopje tem um lado moderno, com edifícios novos com jeito de antigos, de um dos lados da ponte de pedra (da época dos romanos), praças com enormes estátuas, que passam uma idéia de algo cenográfico, uma espécie de LAS VEGAS, com somente um pouco menos de mau-gosto, em comparação com a artificial e brega city estadunidense.
Do outro lado do rio, que está sendo dragado, para se parecer com antigas cidades centro-europeias, está a cidade antiga, medieval, a parte bonita. Nela se encontra um enorme mercado ao ar livre onde a atmosfera é totalmente oriental.
A viagem para cá vale por esta parte antiga de Skopje, que o google insiste em traduzir para “Escópia”.

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България , приятелска страна.

Em София (Sofia), Bulgaria.

Os Búlgaros se orgulham da invenção do alfabeto cirílico.

Não foi bem assim.

Na verdade este alfabeto foi criado por Cirilo e por Metódio, dois missionários, encarregados na segunda metade dos anos 800 de nossa era de traduzir a bíblia para o eslavo, no território hoje ocupado pela República Tcheca, pela Eslováquia e pela Eslovênia, já que as línguas eslavas possuem fonemas que não conseguiam ser grafados com os dois outros alfabetos ocidentais, o latino e o grego.

Por conta de uma das frequentes lutas internas pelo poder de dizer o que a bíblia diz, texto reinventado muitas vezes desde as primeiras versões, no início dos anos 900 o Papa determinou que apenas em latim poderiam ser rezadas as missas, e só em latim poderiam ser impressas bíblias.

Alguns padres, todavia, seguiram aprimorando aquele alfabeto mais adequado às línguas eslavas até que, já com uma configuração muito próxima da atual, no início do primeiro milênio, foi adotado com o nome atual, em homenagem a um de seus criadores, feito santo, São Cirilo, na Bulgária.

Em 1054 um bispo inábil enviado pelo Papa para “enquadrar” a igreja em Constantinopla, atual Istambul, acabou excomungando o partiarca local. Foi o que bastou. Como o clero bisantino queria também ter o monopólio da interpretação do sagrado, queria dizer o que a bíblia diz, excomungou o bispo que havia excomungado o patriarca. Feita a fuzarca, surgiu a Igreja Ortodoxa, com irrelevantes diferenças teológicas em relação à Igreja liderada pelo papa, e que adotou o alfabeto cirilico, para se aproximar mais dos fiéis, para conquistar mais fiéis e com eles, mais sustentação financeira para a enorme burocracia clerical que a partir de então se estabeleceu em todos os países de língua eslava, em separado da Igreja Apostólica Romana.

Se teve origem em um dos diversos cismas dentro cristianismo (lembram da criação da Igreja Anglicana para que o Rei Inglês pudesse se divorciar, ou da Reforma protestante para justificar a acumulação capitalista? Pois, então!) a utilização do alfabeto cirlíco opôs até mesmo ateus comunistas, depois da Revolução Russa: enquanto Lenin e Trotsky defendiam que a revolução teria que ser feita em nível internacional (para evitar uma aliança capitalista pela sua restauração na Rússia), outros revolucionários como Bukarin defendiam a viabilidade da revolução em um único país. Este debate se prolongou na Terceira Internacional até o início da década de 30, quando o nazismo chegou ao poder na Alemanha, com os internacionalistas que defendia adoção do alfabeto latino para mais facilmente “exportar a revolução” sendo acusados de traidores e de “reformistas” pelos defensores da manutenção do cirílico. Essa polêmica perdeu sentido quando ao final da Seguda Guerra todos os povos eslavos optaram pelo socialismo burocratizado hegemonizado por Moscou, todos utilizadores do alfabeto cirílico.

É verdade, reiteramos, que foi no segundo império búlgaro, iniciado por volta de 1150, fortemente apoiado pela Igreja Ortodoxa, que o alfabeto cirlíco se desenvolveu e se espraiou para todos os países de origem eslava, como a Rússia, a Ucrânia, a Sérvia, a Macedônia entre outros, sendo utilizado até hoje (com variações em alguns dos países que o adotam).

Com a entrada da Bulgária na União Europeia o cirílico, ao lado do grego e do latino, também é considerado um alfabeto europeu.

Não sei como se escreve Roussef em cirílico, mas ficamos orgulhosos ao constatar que quase todos os búlgaros com quem conversamos perguntaram com simpatia pela presidenta Roussef, cujo pai era búlgaro, e pelo ex-presidente Lula. Afortunadamente foi-se o tempo em que do Brasil só conheciam Pelé, Ronaldo, Romário ou Kaká. Ninguém perguntou por Neymar ou por qualquer outro político brasileiro.

Hoje na Bulgária muitos falam inglês ou outra língua além do russo e do búlgaro, até em oficinas mecânicas e em lojas de auto-peças. Um país muito mais rico que a Romênia, quase tanto quanto a Eslovênia ou a Eslováquia, em busca de reconstrução. Tem problemas internos? Claro que sim, como qualquer país, muitos dos quais decorrentes da corrupção, da chamada “máfia búlgara”, do fundamentalismo com que parte das elites aderiu ao capitalismo sem freios depois da derrocada do comunismo, dos salários mantidos artificialmente muito baixos “para atrair investimentos estrangeiros”, mas como estão em franco desenvolvimento e institucionalização certamente encontrarão algum ajuste entre Estado e Mercado que possa propiciar uma melhor distribuição de renda.
Saímos da Bulgária com uma excelente impressão.

Postado por Xixo
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Viajar para algum país é sempre um reencontro, ainda que você nunca tenha lá estado antes.

No mínimo é o reencontro do lugar imaginado, como projetamos ser nosso destino, com o lugar real, sua geografia, sua cultura, seu contexto atual.

A Macedônia da minha adolescência, a de Alexandre O Grande, que derrotou os Persas, que fundou o Helenismo, no século IV antes de nossa era, dificilmente encontraremos nos dias de hoje.
A atual Macedônia, um território entalado entre Bulgária, Sérvia, Kosovo, Albânia e Grécia, nas montanhas, só se reconhece como país há trinta e poucos anos, desde o plebiscito da independência com a dissolução dos regimes comunistas da região no início da última década do século passado.
Estas montanhas onde hoje vivem dois milhões de macedônios, nos Balcãs, foram objeto de disputas e de guerras ao longo de toda a nossa era: pelos búlgaros e pelos otomanos até o início do século XX, para então integrar o Reino da Sérvia, até que, com ela e mais quatro repúblicas se constituiu a Yuguslávia.

Mas minha memória a respeito da Macedônia é mais antiga. Vem da minha infância no bairro de Santa Quitéria em Curitiba. Uma lembrança em preto e branco com chiados que só eram temporariamente acalmados à custa de apalpadas no Bombril acomodado na ponta da antena interna da Telefunken.
Nas férias escolares o Wilsinho, um desajeitado menino “cdf” passava parte das manhãs, depois do café com pão-sovado e doce-de-banana, assistindo um Desenho Animado chamado Hércules, que ambientava na Macedônia os mais famosos mitos que até hoje servem de substrato para a psicologia, para o teatro, para a poesia, para o cinema, para a chamada “cultura ocidental”, helenística, apesar da imposição dos monoteísmos.
As peripécias de “Nilton”, a coragem e os poderes de Hércules, as maldades antropomorfisadas, compuseram o turbilhão de expectativas do Wilsinho e que, certamente por alguma bruxaria helênica, voltam agora para assombrar o Xixo.
Encontrei no youtube somente o desenho que colo abaixo. Mas consigo ainda cantarolar integralmente a música de abertura de cada episódio. Devo ser um bicho em extinção, como extintos foram os faunos, os centauros, os unicórnios que, sim, existiram! Como mitos, mas existiram. E existem para quem não teme sonhar e pensar sobre a natureza humana a partir de arquétipos helênicos.
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https://www.youtube.com/watch?v=rVmGPStTTho&feature=youtu.be

Números, planejamentos e constatações.

Há pouco mais de um ano saímos de Curitiba para nossa volta ao mundo. Até Ushuaia, ziguezagueando, foram 6.000km. De lá até o Alaska e depois até New York, foram outros 36.000km.

A Lola, nossa Defender ano 2010, foi comprada de segunda mão, quando tinha 66.000km, toda original, sem nenhum acessório, em maio de 2014. Quando iniciamos nossa descida até o ponto mais ao sul da América Latina nosso odômetro marcava 68.000km.

Ao chegarmos em New York para embarcar a Lola constatamos que estávamos a ponto de “arredondar”, atingir os 110.000km, ou seja havíamos percorrido 42.000km desde a partida, de ponta a ponta o continente americano, de sul ao norte, de oeste a leste.

Partindo de Portugal, sem percebermos, devagarinho, chegamos à fronteira da Romênia com a Bulgária, nas margens do Mar Negro, depois de rodarmos exatamente 6.000km desde que saímos de Lisboa onde a Lola foi descarregada. Até o final desta etapa europeia rodaremos outro tanto, no máximo.

A Lola está reagindo bem ao frio e à neve. O consumo médio se manteve estável, em 8km/litro a 80km/hora, mas se apertar o pé no acelerador a média baixa bastante. O aquecimento interno tem sido suficiente, chegando às vezes a dar calor, apesar das temperaturas exteriores serem negativas.

Agora vamos zanzar um pouco pelos Balcãs antes de entrarmos na Ásia, provavelmente em março.

Vocês acreditam que ainda não decidimos por onde? Às vezes ficamos com vontade de chegar à Armênia, à Geórgia, ao Azerbaijão passando pela Ucrânia, por cima do Mar Negro, outras vezes nos convencemos ser menos perigoso passar por baixo, cruzando a Turquia, pela Capadócia. De lá também ainda não decidimos por onde prosseguir: por baixo ou por cima do Mar Cáspio? Engana-se quem imagina ser possível fazer um planejamento com muita antecedência. Um atentado, uma alteração política local, uma catástrofe natural ou mesmo a época do ano, fatores climáticos, frequentemente alteram totalmente o que havia sido meticulosamente planejado e calculado. E assim, vamos decidindo “sobre la marcha”, ponderando e sopesando altenativas, nos adaptando às contingências e aos contextos (como em tudo na vida) sem a pretensão arrogante e ilusória de controlar todas as variáveis. Esta, aliás, é uma das maravilhas de se viajar como viajamos, de viver como vivemos.

No final de janeiro nos encontraremos com Renan e Paula, nossos amigos do Outsiders Brazil que já estão há algum tempo “overlandando” neste canto do mundo em um Troller e certamente poderemos nos aconselhar com eles. Do mesmo modo, agradeceríamos eventuais sugestões de quem vive ou que passou recentemente por aqui.

Postado por Xixo
Fotos de Francisco

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Black Sea Coast.

Camponeses assustados pelos intérpretes do sobrenatural e das escrituras “dos antigos” nas quais estaria contida a maneira de existir adequada aos interesses das classes dominantes de então acreditavam no Strigoi.
Esse “demônio” segundo a crença medieval nasceria sempre que mulheres decentes saíssem às ruas “sem motivo”, à toa. Os filhos dessas mulheres que não se resguardavam no devido recato nasceriam Strigois, espécie de lobisomem, que se alimentaria de sangue humano, mataria criações, causaria prejuízos. Tudo no velho primarismo das oposições binárias: prêmio/castigo, virtude/pecado, paraíso/inferno.

O inglês Bran Stoker juntou os relatos sobre os Strigois com a história do Conde com obsessão anal, do Vlad Tepes, do filho do dragão, para criar seu personagem Drácula, com bastante liberdade criativa, já que o mesmo guarda quase nada de relação com Vlad, o Empalador, que esteve no Castelo de Bran, visitado por nós.

Trata-se de um típico castelo medieval, com muitas passagens secretas, bem conservado, próximo a Brasov, ao norte de Bucareste.

Evitamos a capital e as auto-estradas com pistas duplas. Preferimos vir lentamente pelas beiras dos Cárpatos e pelas agriculturadas planícies até as margens do Mar Negro, onde termina a Europa e onde a vida campesina se mantém quase medieval, inclusive quanto à crença em mitos e nos intérpretes do sagrado.

Essa herança telúrica, ancestral, passou por décadas de um comunismo burocrático sem grandes traumas. As gentes daqui nunca experimentaram uma maneira de existir diferente, sempre foram dominados, oprimidos, pelos magiares, pelos teutônicos, pelos romanos, pelos otomanos, pelas elites locais, pelos comunistas, pela igreja, pelos latifúndios que foram extintos pelo regime de Ceaucescu.

Hoje a Romênia continua pobre. Como nas zonas rurais do Brasil, mas sem aquela obscena diferença de classes, sem aquela vergonhosa concentração de renda da minoria enquanto o empobrecido campesinato continua sem acesso à terra. Aqui todos são classe média baixa, e vivem melhor, com mais recursos e melhor infraestrutura que os trabalhadores rurais brasileiros.

Há, sempre há, riscos de novos strigois se escalarem para vampirizá-los, para sugar-lhes o sangue, mas por enquanto os descendentes de Vlad têm resistido, preservado sua maneira de existir, seus mitos, preconceitos e temores, como sempre foram, em permanências volitivas. Escolheram ser assim, aparentemente algo pré-capitalistas, vítimas de oposições binárias.

Adoramos a Romênia, onde termina, onde sempre terminou a Europa, nas margens do Mar Negro.

Postado por Xixo
Fotos de Francisco

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Medievais.

As sombras da Igreja seguem lá. Sibiu e Brasov distam 300km. Na idade média se demorava uma semana para ir de uma à outra. Inúmeras ainda existem no caminho. E em cada uma das cidades fotografadas por Francisco.

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Fomos multados!

em DN1 Brasov-Sibiu.

O Fran comentou que desde a Hungria não cruzáramos com outra Defender. Minutos depois quando paramos para fotografar raios de sol que, vazando das nuvens, iluminavam os campos, fomos ultrapassados por uma Land toda equipada. Buzinou e seguiu.
Um pouco adiante o Fran observou que não havíamos sido abordados por nenhum guarda de trânsito.
Ô boca, viu!

O trecho de menos de 300km de Sibiu até Brasov, onde o corpo de Vlad Dracula (sem a cabeça) estaria enterrado foi cumprido em quase 5 horas. A estrada passa por talvez umas duas ou três dezenas de cidades de modo que a velocidade máxima permitida varia constantemente: passa de 100 para 70 nas encruzilhadas, baixa para 50 na entrada de cada vila ou cidade e baixa ainda mais quando o fluxo de carros passa perto de escolas ou hospitais, 30 e 40 km/h respectivamente, para voltar a 50, a 70 e a 100 km/h e assim sucessivamente.

Em uma dessas vilazinhas fomos abordados por um policial. Estávamos, segundo disse, a 75 quando o máximo permitido seria 50 quilômetros por hora. Pediu o passaporte, a carteira de motorista e os documentos do carro.
Em um inglês impecável explicou que nos multaria: $ 105 lei, aproximadamente R$ 100,00.

Compreendemos. Ele estava fazendo seu trabalho. Enquanto a multa era lavrada por seu colega, o policial Bogdan Popa ficou conversando conosco. Tiramos fotos e ele ficou nosso “amigo no feice”. Pagamos a multa e, juntamente com o recibo e com a cópia da notificação, nossos documentos foram devolvidos. Tudo muito civilizado, institucionalizado. Erramos, fomos multados, pagamos a multa, trocamos apertos de mão com os policiais e seguimos. Tudo como tinha que ser.

Por via das dúvidas Bá e eu proibimos o Fran de fazer outros comentários na linha do “faz tempo que não…”. Ô boca!

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Nas terras de Drácula, o herói Romeno.

em Transylvania, Romania.

Nos transportemos para as vésperas de 1500. Imaginemos um Nicolau Maquiavel (1469-1527) estupefato pelas descobertas de Colombo em 1492, quando contava com pouco mais de 23 anos. Como explicar a si mesmo e ao Príncipe que havia sido descoberto um continente não mencionado na Bíblia, ocupado por milhares de habitantes que nunca haviam ouvido a história de Jesus. O que dizer para os milhões de cristãos agora que se constatou que a terra não é plana e que o sol não gira em torno da terra, mas exatamente o contrário. Como dizer para os assustados camponeses que os padres estavam errados, que a terra é redonda? Diante de uma tamanha alteração na cosmovisão os fiéis não deixariam de acreditar por completo na igreja e nos mitos que por quase 1.500 anos haviam sido construídos?

A resposta, óbvia para os padrãos da época, foi matar quem ousasse duvidar dos postulados do cristianismo. E assim, quando o território que mais tarde veio a ser conhecido como Brasil era invadido por Portugal, a Igreja organizou a execução de mais de 50.000 pessoas que ousaram questionar os fundamentos do cristianismo ou a versão de que Jesus da Galiléia tinha sido o Messias anunciado no Velho Testamento.

Fortalecida por ter conseguido finalmente expulsar os últimos árabes da península ibérica, a Igreja aproveitou para expulsar também os judeus e implantou um severo regime repressivo, draconiano, que torturava por bondade, para que o torturado pudesse se arrepender de seus pecados. Neste período também milhares de mulheres que tinham opinião própria foram queimadas vivas, como bruxas em vários países da Europa ocidental.

Assim começou a história do Brasil e de Nuestra América. Mas o que acontecia do outro lado da Europa não era menos cruel. Na antiga Dácia, na região da Transilvânia, então denominada Valáquia, no noroeste de onde hoje se situa a Romênia, havia um nobre católico que se antecipou à Inquisição. Chamava-se Vlad II, conhecido como “Dracul”, cujo sobrenome em latim “draco” significava “dragão”, mas também podia significa “demônio”. Esse nobre, apoiado pelo rei da Hungria, impedia que os árabes do Império Otomano que estavam sendo expulsos da península ibérica avançassem pelo leste europeu.

Para selar uma paz provisória o conde Dracul entregou dois de seus três filhos para serem criados pelo Sultão de Constantinopla como garantia de que o pai não avançaria em direção ao sul, onde hoje se localiza a Bulgária: o mais velho, também chamado Vlad e o menor, chamado Radu.

Quando aos 17 anos Vlad soube que seu pai havia morrido voltou à Valáquia e com ajuda de parte das elites locais, depois de cinco anos de guerra, conseguiu “reconquistar” o trono de seu pai e assumiu como Vlad III, dracula (paroxítona), filho de Dracul, filho do Dragão. E foi impiedoso com seus inimigos: desenvolveu uma estranha e antiga técnica de tortura e morte de seus desafetos, um requintado processo de “empalamento” que consistia em enfiar uma vara sem ponta pelo ânus da vítima, lentamente, até que a vara saísse pela boca, causando poucos danos às entranhas. Depois esta vara era amarrada a um poste deixando a vítima na vertical, até a morte, que geralmente ocorria dois ou três dias mais tarde.

Essa mesma técnica foi igualmente utilizada contra os árabes com quem guerreava ao sul, tentando impedir que avançassem em direção às férteis terras a montante do Danúbio, tendo sido responsável por milhares de mortes de “mouros”, por empalamento, por “tepes” na língua local, daí decorrendo o apelido de Vlad Tepes, Vlad o Empalador, o filho de Dracul, o Dracula empalador. Conta-se que uma vez recebeu uma comitiva de emissários árabes. Depois do banquete que lhes ofereceu, mandou entrarem os seus guardas que ali mesmo, na mesa do jantar, tais embaixadores tiveram suas calças arriadas e foram empalados e mais tarde exibidos ainda vivos, agonizantes, aos seus próprios exércitos como ameaça do que lhes aconteceria se ousassem invadir a Valáquia permitindo que retornassem para contar a todos os infiéis do mundo árabe que Vlad, além de empalar, bebia o sangue de seus desafetos. Em outra oportunidade ofereceu um banquete para 3600 pobres sem emprego que vagavam pelo condado. Ao final da ceia as portas foram trancadas e o prédio incendiado em meio a gritos desesperados. Conta-se que o cheiro de carnes assadas permanceu por semanas no local. Estes, por muito numerosos e por misericórdia cristã, foram poupados do empalamento.

Apesar de tais táticas de intimidação Vlad foi derrotado pelos exércitos Otomanos liderados exatamente por Radu, seu irmão caçula que havia permanecido fiel ao Sultão de Constantinopla.

O Rei da Hungria resignou-se e fez um acordo com Radu: Vlad seria preso e Radu assumiria o poder no Condado, que passaria a integrar o Império Otomano, interrompendo-se o avanço em direção à Hungria.
A prisão durou quase 12 anos, período durante o qual o nobre Vlad ficou confinado em um castelo na Hungria, casou-se e pode se divertir empalando passarinhos e ratos que caçava.
Com a morte de Radu o Rei da Hungria “libertou” Vlad, atribuiu-lhe um exército para que tentasse reconquistar a Valáquia. Não conseguiu. Foi morto por alguns de seus próprios liderados e sua cabeça foi enviada para o Sultão Otomano como garantia de que o filho do dragão, o dracula, nunca mais empalaria ninguém.

Este personagem real é que inspirou o inglês Bran Stoker a escrever sobre um certo Conde, agora já proparoxítono, com tônica na primeira sílaba, com bastante licença poética.

O curioso é que tudo isso se passou no mesmo período em que os Reis Católicos tentavam derrotar o Sultanato de Granada, com a ajuda de San Tiago (Saint Jaques/Jacob/yago/james/santiago), que segundo a lenda apareceria aos soldados cristãos orientando-os como exterminar os mouros, daí a razão de ser chamado Santiago “matamoros”, cuja bondade cristã é celebrada até hoje pelos peregrinos que trilham uma das inúmeras rotas do famoso “Caminho de Santiago”, na Espanha. Esse cristianismo só foi aprimorado durante a Inquisição, mencionada no início desta narrativa, e não diferia muito daquele praticado por Vlad Tepes, o Dracula, considerado até hoje como herói nacional romeno.

Nem tentem questionar por aqui o heroísmo de Vlad III. Todos estão convencidos de que frente aos mouros, aos muçulmanos que ameaçavam a tradição cristã, a cultura e os hábitos cristãos, o “filho do dragão” fez o que tinha que ser feito. Defendeu a nação frente aos estrangeiros. Certamente o contemporâneo Maquiavel não teria esse modelo de Dirigente quando, fundando a Ciência Política, aconselhava o Príncipe italiano, nem este modelo de sociedade quando assessorou o governo da Polônia. Todavia os requintes de crueldade treinados durante anos em escaramuças com os mouros talvez tenham em alguma medida influenciado outras conquistas e outras ocupações territoriais promovidas a golpes de cruz e de espadas na criação do Estado Moderno.

Como se vê, os filmes sobre o Conde Drácula vagamente referenciados no nobre cristão, são bem menos aterrorizantes que a realidade, que a história real de personagens que efetivamente existiram e de alguns que ainda existem defendendo nacionalismos e a prevalência de seus mitos em face dos mitos dos estrangeiros. Fiz-me entender?

A antiga Valáquia, depois chamada de Transilvânia, segue sendo rural e profundamente católica. No caminho de Arad até Sibiu vimos mais de uma centena de igrejas, a maioria de rito ortodoxo, mesmo depois de décadas de comunismo. Mas isso será assunto para novas reflexões.

Postado por Xixo
Fotos de Francisco

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O Fran perguntou para a Bá qual havia sido a cidade mais bonita desta etapa da viagem.

Antes que ela respondesse resolvi meter o bedelho: “das duas fases, desde que saímos do Brasil”.
Racional como sempre ela respondeu não ter como comparar Antígua Guatemala com Paris por serem ambas lindas, mas diferentes.
A Bá, novamente, tem razão. Sequer o êxtase diante das belezas arquitetônicas são passíveis de comparação por dependerem de nosso “estado de espírito” no dia, de nossa subjetividade naquele momento em que nos deslumbramos.
Voltando à questão posta pelo Fran resolvemos facilitar a resposta da Bá, deixando de fora New York e Paris, duas cidades que não podem ser comparadas (nem entre si, nem com qualquer outra), hors concours.
E daí ficou fácil: Budapeste é a cidade europeia mais bonita dentre as que visitamos até agora.
Postado por Xixo
Fotos de Francisco

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Budapeste das iconoclastias que fazem escola.

em Budapest. Hungría.

Um amigo que se foi antes do combinado e que adorava viajar de moto escreveu um livro chamado Los Derechos Humanos en la Escuela de Budapest (http://joaquinherreraflores.org/…/biografia-de-joaquin-herr…) revisando as concepções de dois dos principais pensadores do século XX que se dedicaram à análise da cultura e das potencialidades de transformação social: György Lukacs (http://www.institutolukacs.com.br/#!quem/c1hsz) e Agnes Heller (http://esztetika.elte.hu/en/dr-agnes-heller-dsc/).

Pensei muito em Joaquín Herrera Flores no caminho para cá. Na sua concepção uma sociedade justa seria aquela em que coubessem todos, sem discriminação, e seria tanto mais democrática quanto mais nela se respeitasse o direito de cada um e de todos e todas lutarem para a sua própria concepção de justiça. Defensor de um diálogo intercultural, todas as culturas seriam válidas, Joaquin sonhava com a ampliação progressiva de espaços democráticos em que homens e mulheres pudessem se expresssar, viverem vidas que valessem a pena serem vividas, em condições de não-discriminação. Ele era quase todo Lukács e Heller, mas também era Fanon, também era cada um dos principais pensadores que priviligiam a ontologia do ser em detrimento daquela do ter. E era Spinoza, o herético, o iconoclasta.

Morreu há cinco anos. Não viu o crescimento desta espécie odiosa de xenofobia que infesta a Europa, uma xenofobia econômica, que rejeita os estrangeiros pobres, que discrimina os imigrantes que só têm como deles suas forças de trabalho para vender. Não vivenciou esse absurdo retrocesso civilizatório decorrente da crença no sobrenatural, nas certezas de que o deus de um grupo é melhor que o deus do outro, numa disputa insana para louvar com mais fundamentalismo o seu deus, tido por único, todo-poderoso, o deus certo e a igreja certa. Não viu, meu amigo trianeiro, o crescimento eleitoral de partidos de Direita na Europa, não pode lastimar a vitória de Macri na Argentina, não pode acompanhar os massacres contra os palestinos nestes últimos anos. Não pode chorar pelos mortos na Syria para atender aos interesses da indústria petroleira e também não pode se entristecer com as mortes de civis inocentes em Paris, quando o Isis reagiu, revidou as mortes de civis inocentes na Syria e no norte do Iraque.

Fiquei imaginando para onde teria se desenvolvido a Teoría Crítica de los Derechos Humanos diante de tantos recuos no respeito aos Direitos mais elementares de homens, mulheres, crianças e velhos que teimam em sobreviver. Não alcancei obter uma resposta minimamente satisfatória.

Andei com meus filhos por uma Budapeste diferente daquela de Lukács e de Heller, distinta daquela visitada por Joaquín quando pesquisava para escrever sua tese doutoral ainda no tempo da “cortina de ferro”. Passeando pelos encantadores boulevards de Peste ou divisando-a desde a colina Buda imaginei que talvez tenha cruzado com aquele desengonçado jovem andaluz de minha idade, a quem só viria a conhecer durante o I Congresso de Direito Alternativo que organizamos em Florianópolis no início da década seguinte, depois do fim da União Soviética.

E lembrei de Joaquin por outros dois motivos também: 1) porque daqui iremos para a Romênia que naquela época em que eu poderia ter trombado com Joaquin pelas ruas de Budapeste era dirigida com mão de ferro por Ceaucescu. O pai de Joaquín, pedreiro, trabalhador braçal militante do Partido Comunista Espanhol, era um entusiasmado defensor de Ceausescu (cada coisa!); e 2) porque iniciou esta semana mais uma edição do Máster criado por JHF e hoje codirigido por Francisco Infante, Lina Galvez e por Carol Proner, mãe dos meus filhos, uma reputada pós-graduação interuniversitária promovida pela Universidad Internacional de Andalucía (UNIA) e pela Universidad Pablo de Olavide (UPO).

Resolvi fazer esse post porque jantamos no restaurante Spinoza e nele brindamos à iconoclastia de JHF e de tantos outros que não dependem dos “reconhecimentos” alheios. São o que são porque decidiram ser como são.

Esse Joaquín Herrera Flores era um grande sujeito!

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Bratislava Downtown, Slovakia.

Na capital da Eslováquia se encontram diversas estátuas pelas ruas, em tamanho natural. Para quem é abobado quando viaja há inúmeras possibilidades de fotografia. Trata-se de uma estratégia para atrair turistas bastante eficiente.
No centro histórico, um enorme calçadão onde não é permitida a circulação de veículos, se encontram diversas confeitarias, lojas de souvenir e alguns pequenos museus.
Esta cidade que já foi reivindicada por todos os países vizinhos, à beira do mesmo Rio Danúbio em cujas margens se encontram Viena e Budapeste, nos surpreendeu por seu cosmopolitismo.

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Fronteiras reinventadas: desumanas, demasiadamente desumanas.

em Viena.

De Innsbruck na Áustria fomos até Bled na Eslovênia. Havia três rotas sugeridas pelo GPS. Optamos pela que parecia mais rápida, que saía em direção a Munique na Alemanha para depois seguir em direção a Salzburg novamente na Áustria para enfim descer em linha reta para o sul, até a Eslovênia.
Não foi o caminho mais rápido. Como esta rota implicava rodar algumas dezenas de quilômetros pela Alemanha perdemos mais de uma hora em uma extensa fila de carros, ônibus, caminhões na fronteira. Um a um os veículos eram parados em uma cancela, tinham que abrir a janela para que o policial alemão se pescoceasse para dentro do carro. O que buscavam? Nada de mais: queriam ver se havia refugiados dentro dos veículos sendo ajudados por alguma boa-alma. O governo direitista de Angela Merkel e os empresários tedescos não querem mais sírios ou africanos em seu território. Não precisam desta gente, os que já vieram bastam para os objetivos empresariais e governamentais.

Não nos pararam na entrada da Eslovênia, mas quando saíamos em direção à Croácia novamente fomos submetidos a outra longa fila, que não fazia sentido, pois a Croácia integra a União Europeia desde 2013. Curiosamente foi na fronteira eslovena que nos pediram os passaportes e, pasmem, “carimbaram” nossa saída do país. Não estávamos saindo do “Espaço Schengen” (http://ec.europa.eu/…/sc…/schengen_brochure_dr3111126_pt.pdf) que permite a livre circulação de pessoas entre os países signatários deste Tratado Internacional. Fomos parados novamente na fronteira croata: olharam os passaportes, espiaram dentro da Land e, sem carimbá-los, nos mandaram seguir, sempre com aquelas caras de todo-poderosos decorrentes do uso de uniformes.

Para voltar de Zagreb até Viena sabíamos o que teríamos que enfrentar: se para irmos ao sul, no contra-fluxo da rota dos refugiados e dos imigrantes, já havíamos penado com controles fronteiriços, sabíamos que o percurso de volta à Áustria não seria fácil, pois teríamos que novamente cruzar a Eslovênia.

Na saída da Croácia, depois de uma “fila indiana” de aproximadamente meia-hora uma policial carrancuda carimbou a “saida” nos nossos passaportes (sem que houvesse carimbo de entrada no país), mas não ousamos questioná-la. Poucos metros à frente tivemos que novamente exibir os passaportes, agora para o policial esloveno com cara de guarda de campo de concentração. Sem sorrir, plect, carimbou novamente a “entrada” em nossos passaportes. Não havíamos saído das fronteiras da União Europeia, estávamos ainda no ingerior do “espaço Schengen”, não fazia sentido carimbar entradas ou saídas: já estávamos dentro!

Mais alguns quilômetros e encontramos nova fila, esta mais lenta e mais longa. Haviamos chegado à fronteira com a Áustria. Desta vez nem se abalaram procurando sírios ou sub-saharianos, simplesmente folhearam os passaportes e nos ordenaram que avançássemos. Custava serem gentís?

Para nós que esperávamos menos burocracia circulando na Europa esses controles em fronteiras que haviam deixado de existir (essa é a ideia central a justificar a existência da União Europeia) foi uma enorme decepção. A sensação que nos fica é a de um retrocesso civilizatório com requintes de crueldade.

A pobreza criada na África e no Oriente Médio pela divisão assimétrica de poder econômico e político entre as classes sociais e entre os países em suas relações internacionais empurra para fora de lá milhares de refugiados econômicos, em busca de formas de “ganhar a vida” e muitos a perdem tentando. As guerras inventadas pelos países de capitalismo central, de outra parte, expulsam milhares de pessoas que têm que deixar seus territórios para fugirem dos bombardeios que os EUA e seus aliados europeus promovem na Síria, no Iraque, no Afeganistão. Interesses das empresas petrolíferas e da indústria armamentista produzem refugiados que agora são impedidos de entrar nos territórios dos países que causarm o êxodo. Uma tristeza.

Esses controles fronteiriços são acima de tudo racistas e ideológicos. Nem todos são impedidos de circular. Nós passamos sem problemas pelas fronteiras, somos brancos, estamos dirigindo nosso próprio carro com placas brasileiras. Esses controles visam impedir o ingresso de pobres. Mais precisamente essas fronteiras querem evitar a entrada na Europa de pobres negros e de pobres “turcos” (a Síria e todos os demais países do Oriente Médio só passaram a existir a menos de cem anos, com a derrocada do Império Turco-Otomano, quando os países europeus inventaram as fronteiras da Palestina, da Jordânia, do Líbano, da Síria, e mais tarde, de Israel). Ricos africanos, árabes, orientais ou latino-americanos continuam podendo circular normalmente, apesar dos controles em fronteiras reinventadas, reavivadas, reestabelecidas. Pobres seguem morrendo nos bombardeios, nas guerras intertribais fomentadas por interesses capiitalistas globais, nas travessias fracassadas de desetos, de montanhas geladas ou dos mares que ao invés de unirem a Europa à África e ao Oriente, se transformam em cemitérios de refugiados, contaminado as praias ocidentais com a imundície de suas pobrezas. Desumano, demasiadamente desumano, Herr Nietzsche, Frau Merkel.

Esse retrocesso civilizatório é mais preocupante quando se constata que o ideário de Direita que justifica essas novas fronteiras contra pobres, contra pobres-diabos (que já perderam tudo por causa da ganância das empresas ocidentais e do modo de produção predominante), conta com o apoio político e eleitoral de parcelas crescentes do eleitorado europeu.

As fronteiras reestabelecidas e o ressurgimento do racismo e da discriminação contra pobres “estrangeiros” deixam claro aos viajantes que restam difuminadas as fronteiras entre barbárie e civilização, entre a irracionalidade e a razão, desumanizando as relações sociais, amesquinhando o que parecia ser o legado da humanidade. A cultura do ódio está substituindo a cultura do respeito aos Direitos Humanos na Europa. Só na Europa?

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A Eslovênia é muito mais que Bled.

em Ljubljana, Republic Of Slovenija.

A capital Ljubljana manteve a sobriedade arquitetônica, diferentemente de Belgrado capital da antiga Yuguslávia, da qual a Eslovênia era a região mais desenvolvida.

Nos cinzas e brancos do inverno resistem as cores da ancestral herança eslava nas roupas, nas comidas. Repolhos de várias espécies, ágrios, temperam o cotidiano. O repolho azedo é vendido em enormes sacos plásticos, de cerca de dois quilos, nas feiras, e em pacotes menores em algumas esquinas.

O símbolo da capital é o dragão, mas não deve ter relação com os azedos repolhos e com os bafos que ensejam.

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Preferimos as pequenas cidades e os pequenos hotéis. Bled: um verdadeiro presente de Reis.

em Bled Island.

Há vários estilos de viagem. Na nossa não nos sentimos obrigados a conhecer as cidades grandes.
Cruzamos todos os países continentais das três Américas (à exceção de Venezuela, Guianas e Canadá) e não visitamos todas as capitais. Contornamos Santiago, Bogotá, Manágua, Bogotá e Washington.
Na Europa estamos preferindo as cidades pequenas, os hotéis com cara de pousada (B&B, albergues, hostais) com estacionamento fácil, que têm várias vantagens em relação aos horrorosos e impessoais “hotéis de rede”, inclusive no preço.

Na Europa, em vários países, a troca de presentes se dá no Dia de Reis, em 06 de janeiro, em referência ao mito cristão. Nos deslumbramos com o nosso: a possibilidade de estarmos aqui em harmonia e integrados à paisagem.

Sem termos feito reserva encontramos um pouso simpático bem em frente à ilha do Lago Bled, na Eslovênia, e pudemos nos deliciar com a culinária ancestral desta região. Espiem o cardápio, não muito facilmente decifrável, como o de sobremesas aqui. Temos direito a doces, hoje é dia de reis!

Também, registramos, não nos sentimos obrigados a não visitar as cidades maiores, sejam capitais ou não. Algumas são incontornáveis.

Mas preferimos as vilas, os “pueblitos”, as aldeias, os vilarejos escondidos onde o turismo é menor, os preços são melhores, os restaurantes mais vazios, o povo mais simpático. É nosso jeito de viajar.

Postado por Xixo.
Fotos de Francisco (menos as do cardápio, óbvio, risos)

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Abobados, abestados, abobalhados.

Fizemos guerra de bolas de neve, operamos os respectivos celulares com as pontas dos narizes e com a ponta da língua para não termos que tirar as luvas enquanto o Fran fotografava o lindo Lago Bled e sua charmosa ilha, no norte medieval da Eslovênia.

Anoiteceu às 17h15, mas ficamos nos abobalhando no frio até depois das seis da tarde.
Gargalhamos, corremos fugindo uns dos outros. E tome boladas de neve!
Havia mais de seis meses que não me sentia tão feliz. Desde o fim da primeira etapa da Nossa Grande Viagem (Fran e Bá voltaram ao Rio para a escola) no início do semestre passado. Claro que me diverti desde então, mas não com a mesma intensidade.

Essa de hoje é uma alegria diferente, íntima, cúmplice e reciprocamente complementar que só quem tem filhos (e não tem vergonha de ser feliz) pode compreender.

Experimente ser bobo, ser boba, se abobar sem medo do ridículo, sem temer que riam de você. E escolha ficar junto a quem não tenha perdido a capacidade de rir com você.

Virei criança esquivando-me dos pelotaços de neve e lembrei que adorava banho de chuva no verão, de sapear descalço na grama e na lama sob as grossas trombas d’água de minha infância.

Não fiquei com saudades daquela época, pois já percebi que “aquele tempo” é hoje para quem não tem medo de rir, de rir com, de rir a toa, de rir desabridamente.

Na próxima chuva-de-verão, não importa onde, vou tirar o sapato e vou sapear lá fora. Prometo a mim mesmo. E farei selfies.

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Na neve, sem correntes.

Não estou acostumado a dirigir na neve.
É diferente de dirigir na lama. Algumas vezes o carro gruda no chão, outras vezes desliza e sai de lado.
Não sou propriamente inexperiente. Já dirigi pelo Canadá francófono no mais rigoroso frio até então (1990) com temperaturas de menos 35 graus célcius, na Escócia, Irlandas, Gales e Inglaterra em um inverno remoto (1995) e em diversas outras oportunidades nos Alpes (Charmonix, Les Arcs, Grenoble, Liechenstein, Suiça e no norte da Itália) já neste século.
Mas fico tenso.
Não tenho correntes para colocar nas rodas. Acho até que deve ser equipamento obrigatório aqui por essas bandas, vou me informar. Nas outras vezes evitei ao máximo instalar a correntes nos carros que aluguei. É chato, congela as mãos e tem que ficar colocando e tirando novamente quando se chega a estradas já mais limpas e com sal.
Se for obrigatório comprarei. Se não for, vou levando, como bom brasileiro que adora aventuras. E que detesta correntes. Todas.
Dizem que não está tão frio este ano.
Podemos imaginar como foram os invernos anteriores aqui na Áustria.

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É uma laranja!

Encontramos em Innsbruck uma família de jipeiros de São Bento do Sul (Luis Roberto, Simone, Luis Felipe e Isabela), com quem temos varios amigos em comum.

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Lendo no carro, entre a Rosa e o Cravo.

Há fronteiras totalmente arbitrárias, como as africanas, resultado de uma partilha entre as nações imperialistas européias há pouco mais de um século. Lá não se respeitou a ocupação do território pelos povos tradicionais e deu no que deu: cento e vinte anos de guerras tribais, pelo poder político em territórios estatais que não guardam coerência com a história, a cultura e a geografia locais.

De outra parte, há fronteiras óbvias, decorrentes de acidentes geográficos, como uma cordilheira, um rio, um pântano ou um cânion.

Na Europa as fronteiras foram defindas por guerras. A da França com a Alemanha já esteve cinquenta ou cem quilômetros para lá ou para cá da atual delimitação entre os dois países, sempre em decorrência de conflitos armados: a Alsácia e a Lorena já foram francesas ou alemãs muitas vezes nos últimos séculos.

Verdadeiramente as guerras europeias sempre decorreram de causas econômicas (como a invasão do Afeganistão, do Iraque e, atualmente, na Syria decorrem dos interesses capitalistas das empresas petrolíferas, nada mais que isso).

Cruzamos a fronteira com a Alemanha por Strasburg e constatamos visualmente as diferenças em relação à França. Impressiona a pujança econômica teutônica, bastante evidente quando são analisadas as relações internas e internacionais no Velho Continente.

Destruída totalmente ao final da Grande Guerra (1914-1918) à Alemanha foi imposto um humilhante armistício, pelo Tratado de Versalles pelo qual perdia um terço de seu território, todas as colônias africanas, e ainda era obrigada a ressarcir os vencedores cedendo minérios e reconhecendo impagável dívida externa. Deu no que deu: a humilhação cedeu lugar à soberba, os derrotados se tornaram ainda mais nacionalistas, os empresários beneficiados pelos baixos salários de seus empregados, insaciáveis, quiseram mais e apostaram todas as suas fichas no partido nazista que levaria a Alemanha à Segunda Guerra vinte anos mais tarde (1939-1945).

Novamente destruída, em menos de cinquenta anos a Alemanha voltava a ser a nação mais rica do continente e, desde então, domina toda a Europa. O que as guerras não foram capazes de fazer o capitalismo alemão, sob o comando de Angela Merkel consolidou: a Europa hoje é constituída pela Alemanha e por mais de duas dezenas de países que a satelitam. Como eloquência de seu poder, na Alemanha se situa a sede do Banco Central Europeu que, com FMI e Comissão Europeia, forma a (des)prestigiada “troika” que impõe políticas “austericidas”, de austeridade a todos os demais países mediante sofisticados mecanismos de pressão e de chantagem econômica.

Hoje a Alemanha, sem guerra, manda na Europa e impõe a sua racionalidade, sua política, seus fundamentos econômicos e se torna cada vez mais poderosa.

Atravessamos a Alemanha lendo no carro. E conversando sobre a história local.

Quem nos segue há algum tempo sabe como é a “leitura” no carro: a Bá lê um livro em voz alta durante os percursos mais longos e seu pai e irmão, atentos, ouvem o livro entre comentários aqui e ali.

O livro escolhido foi Rosa Luxemburg, sobre a vida e a obra da revolucionária alemã dos primeiros vinte anos do século passado. Entre conceitos dicotômicos como “reforma e revolução”, “ortodoxia e revisionismo”, esta intelectual judia-polonesa esteve no centro das principais discussões políticas de sua época, até ser assassinada por mercenários contratados por empresários alemães e policiais no início de 1919, pondo fim à “Revolução Alemã” contemporânea do fim da Grande Guerra, da proclamação da república e da promulgação da primeira Constituição Social, em Weimar, no continente. A social-democracia alemã, europeia e mundial, que tem por símbolo o cravo vermelho não teria a força que teve durante o curto século XX (Hobsbawm) sem a necessidade de se combater as idéias de Rosa, sem a necessidade de relegitimação capitalista no ocidente.

A história ocidental poderia ser outra se Rosa não tivesse sido assassinada de modo cruel, cuja dramaticidade é bem apanhada por Brecht quando escreveu sua segunda peça intitulada Tambores na Noite. Muito provavelente não teria havido o nazismo e sem ele não teria acontecido a Segunda Guerra. Caso a “sua” proposta revolucionária (que não descartava o gradualismo reformista, nem os fundamentos da democracia ocidental e da liberdade de opinião) tivesse prevalecido muito provavelmente o protagonismo da Rússia não teria criado os horrores da União Soviética, o stalinismo não se estabeleceria.

E assim, sem percebermos, havíamos cruzado a Alemanha de Merkel falando sobre a Rosa Vermelha em eterna polêmica com o Cravo Vermelho dos alemães Kautsky, Bernstein e Ebert e com as táticas do russo Lenin, lendo sobre a Spartakista radical, uma mulher feminista, uma mulher intelectual, uma mulher fantástica e sobre história, sobre geografia, sobre ciência política, sobre filosofia, sobre economia e sobre literatura. Quem disse que nas férias não se pode aprender?

Ler no carro, debatendo sobre o que se lê, é algo que fazemos desde que Fran e Bá eram bem pequenos. Não há evidências de que esta prática tenha feito mal a eles.

As fronteiras da França.

Alguns amigos nos perguntam sobre as “fronteiras fechadas” da França, depois da resposta do ISIS, depois dos atentados com mortes em Paris no final de 2015.

Estávamos preparados para uma longa espera quando deixávamos a Espanha. Os meios de comunicação noticiaram que a França havia retomado o controle fronteiriço.

Como sempre a imprensa exagerou. Havia somente dois policiais armados para controlar umas dez cancelas na primeira praça de pedágio, já no país basco francês.
Mas, claro, dentre centenas de carros que passavam escolheram a Lola. Pura curiosidade. Queriam saber onde diabos era a tal “Curritibá” indicada na placa da Defender.
Nem tivemos que mostrar documentos.

Já em Paris percebe-se o policiamento ostensivo, nas ruas, nas estações. Em um supermercado (bon marché) passaram o “detector de metais” na gente.

As fronteiras, as que realmente mais discriminam, estão no cotidiano desta sociedade assustada com o aumento da imigração, principalmente aquela decorrente dos bombardeios que a França e seus aliados promovem diariamente na Syria. Se começou como fronteira cultural (milhares dos imigrantes recusam o laicicismo francês, apegados a crenças medievais), agora já se configura como fronteira entre classes sociais, entre os remediados franceses e pauperizados imigrantes, estes assustando – pelo fato de existirem – aqueles. O resultado se materializou nas recentes eleições regionais: quase um terço dos eleitores votou na Extrema Direita, nos candidatos da Front Nacional, de Marine Le Pen. Esta é a fronteira mais preocupante: aquela entre o bom-senso e os valores da Direita, entre a civilização e a Barbárie.

Como não somos franceses não nos assustamos quando, em frente à Torre Eiffel fomos abordados por dois magrebianos; pediram para tirar-lhes fotos em cima da Lola. Agradeceram e desejaram que Alah nos acompanhasse.Não havia fronteiras entre nós.

A saída da França foi absolutamente normal. Ao percebemos já estávamos entrando na Alemanha, o vigésimo país cruzado pela Nossa Grande Viagem, a vigésima fronteira.

Imagine se não houvesse essas e aquelas fronteiras! Imagine! Não custa nada sonhar! Não somos os únicos! Já somos quase 20.000 nesta viagem.

Imagine (John Lennon)

“Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje
Imagine não existir países
Não é difícil de fazer
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz
Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só
Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade do Homem
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo
Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só.”
Postado por XIXO
Fotos de FRANCISCO

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Planejando, em detalhes, o percurso dos próximos dez dias.

Acabou o vinho. Vamos ter que partir para um espumante famoso daqui de perto, Reims, para acompanhar os queijos e os salames trazidos por Daniele, Carolina e Ricardo, de León, Espanha.

Estamos esperando Roberto e Valerie que trarão ostras.

É dura esta vida de overlander!

em Saint-Germain-des-Prés.

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Vejam que legal!

Recebemos in-box a seguinte mensagem do Andriel:

“Olá, encontrei o carro de vocês estacionado perto da torre eiffel, passaram o ano novo por lá?”.

Espero que ele tenha tirado fotos e que poste aqui, comentário.

Resposta: “não, companheiro. Passamos na Point des Arts. Estacionamos em frente a Ecole Militaire, perto da torre, porque a Lola, muito alta (2,4 m) não entra nos estacionamentos subterrâneos de Paris”.

Feliz ano novo Andriel, feliz ano novo a todos.

em Escola Militar de Paris.

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Peregrinações, pregações e paganices.

Na Espanha são inúmeros os monumentos, pontes, aquedutos ou cidades com mais de dois mil anos. Anteriores ao nascimento de um aniversariante famoso celebrado dias atrás.

Se no sul frequentemente topamos com a arquitetura e com as tradições árabes (dominaram a península ibérica por 800 anos até meados de 1400), acima de Madrid a presença dos Romanos sobressai (viveram 1000 anos aqui, antes dos árabes chegarem para dominar e civilizar a península).

Aqui em Castilla y León começou a expansão cristã sobre os mouros e sobre os judeus (que aplaudiram a repressão e a violência sobre os muçulmanos até que contra eles se voltaram os adoradores da cruz, expulsando-os ou forçando aparentes conversões).

Aqui também iniciou-se o processo de invasão e de dominação nas Américas (do lado de lá da linha imaginária estabelecida em Tratado assinado aqui perto de León, na igreja em Tordesillas) e na Ásia, de modo não menos cruel.

De “espanhola” mesmo essa parte da península que já foi romana e árabe tem menos de 500 anos. Pouco mais que a idade das Américas, segundo os defensores das autonomias e das independências regionais.

Hoje visitamos uma cidade que estacionou no tempo, Castrillo de los Polvazares, pouco Romana, nada Árabe, cristã, medievalmente cristã, no caminho que até hoje é pisoteado por peregrinos que vão a Santiago de Compostela, mausoléu de Yiago/Iago/Jakob, James, Jacques, ou simplesmente Tiago, o apóstolo que teria vindo para essas bandas do Império Romano e que foi eternizado como “mata mouros” por inspirar cristãos em seus cristianismos contra os árabes.

Este pueblito permaneceu como sempre foi, como o cristianismo hegemônico por aqui segue sendo, medieval como os dois outros monoteísmos tanto quanto reputados. Uma lindinha cidade medieval que tem na permanência, na resistência à modernidade, sua principal característica.

Se estiverem planejando caminhar até Santiago de Compostela tentem dormir neste lugar fora do tempo e não esnobem o também medieval “cocido maragato”, uma iguaria que justifica a peregrinação mesmo aos adoradores de Pantagruel, de Baco, ou de outras paganices.

em Castrillo de los Polvazares.

Postado por XIXO
fotos de FRANCISCO.

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Quem assistiu pode comentar!

El Espinar, ao norte de Madrid, foi a locação principal de um filme espanhol de 1955 que fez muito sucesso à época, merecendo premiações em Cannes e em Berlin.

Trata da história, filmada em preto e branco, de um órfão entregue à criação de monges.

Por sua temática foi exibido por muitos anos em quase todos os países do mundo nas décadas seguintes, até que aquele mundo ingênuo e simplório retratado no fime desaparecesse totalmente.

Talvez algum de vocês tenha assistido, o filme e o mundo que ele retratava. Talvez alguém, motivado por essas reflexões resolva rever – nostálgicamente – aquele filme, aquele mundo e aquela forma de ver o mundo.

Uma dica: aqui em León se encontra um objeto que tem a ver com o título.

A que filme nos referimos?

em Real Colegiata Basílica de San Isidoro.

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Sabem quem disse isso? E quando?

Vale a leitura, merece reflexão, mesmo a quem não partilhe os mesmos mitos que o autor. Fala da vida que merece ser vivida:

“Você pode ter defeitos, ser ansioso, e viver alguma vez irritado, mas não esqueça que a sua vida é a maior empresa do mundo. Só você pode impedir que vá em declínio. Muitos lhe apreciam, lhe admiram e o amam. Gostaria que lembrasse que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, uma estrada sem acidentes, trabalho sem cansaço, relações sem decepções. Ser feliz é achar a força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor na discórdia. Ser feliz não é só apreciar o sorriso, mas também refletir sobre a tristeza. Não é só celebrar os sucessos, mas aprender lições dos fracassos. Não é só sentir-se feliz com os aplausos, mas ser feliz no anonimato. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões, períodos de crise. Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista para aqueles que conseguem viajar para dentro de si mesmo. Ser feliz é parar de sentir-se vítima dos problemas e se tornar autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas conseguir achar um oásis no fundo da nossa alma. É agradecer a Deus por cada manhã, pelo milagre da vida. Ser feliz, não é ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si. É ter coragem de ouvir um “não”. É sentir-se seguro ao receber uma crítica, mesmo que injusta. É beijar os filhos, mimar os pais, viver momentos poéticos com os amigos, mesmo quando nos magoam. Ser feliz é deixar viver a criatura que vive em cada um de nós, livre, alegre e simples. É ter maturidade para poder dizer: “errei”. É ter a coragem de dizer:”perdão”. É ter a sensibilidade para dizer: “eu preciso de você”. É ter a capacidade de dizer: “te amo”. Que a tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz… Que nas suas primaveras seja amante da alegria. Que nos seus invernos seja amante da sabedoria. E que quando errar, recomece tudo do início. Pois somente assim será apaixonado pela vida. Descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Utilizar as perdas para treinar a paciência. Usar os erros para esculpir a serenidade. Utilizar a dor para lapidar o prazer. Utilizar os obstáculos para abrir janelas de inteligência. Nunca desista….Nunca renuncie às pessoas que lhes ama. Nunca renuncie à felicidade, pois a vida é um espetáculo incrível”.

Começa assim o primeiro dia da segunda etapa da NGV.

Hoje embarcaremos para a Espanha onde a Lola (nossa Defender, 110, ano 2010) nos espera.

Pelos próximos dois meses, a cada dia, rumaremos sempre na direção onde nasce o sol.

em Praia do Leblon – Rio de Janeiro.

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Há um ano começávamos nossa travessia pelas Américas em grande estilo.

A ceia de Natal de 2014 preparada por Vicente, Andréa e pelas três meninas (com a cumplicidade de Nuredin e Elis) nos acarinhou tanto que, mais que o repasto, ficou marcada na nossa memória afetiva de modo profundo.

Desde então, já na estrada fizemos novos amigos e amigas que passaram a viajar na viagem que é nossa, dos mais de 18.000 nômades em potencial que já estão, já estiveram ou que estarão na estrada dentro de pouco tempo.

Neste Natal de 2015 brindaremos ao amor eterno de Vicente e Andréa, à amizade entre nossas famílias, ao carinho solidário e à vida-que-merece-ser-vivida.

Amanhã embarcaremos para o trecho europeu da Nossa Grande Viagem.

Desejamos a todos e a todas um natal de harmonia e que esta harmonia perdure e contamine a todos nós.

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Eros e Psique

A peça reproduz o mito grego que envolve sentimentos complexos que, deidades antropomórficas, explicariam a natureza humana. Duas figuras se digladiam: Afrodite, interpretada pela Bá, a deusa da beleza, e Psique, uma linda mortal, de quem a deusa têm inveja. Eros, o cupido filho de Afrodite, tomba de amores por Psique e com ela se casa clandestinamente. Ao se inteirar do ocorrido Afrodite urde vinganças. Instigada por suas invejosas irmãs Psique, a alma, trai a confiança de Eros, o amor.
Todos sabem como termina essa história: depois de privações e provações Psique recebe o reconhecimento de Afrodite, é imortalizada, e do consentido pelos deuses casamento da Alma (Psique) com o Amor (Eros) nasce a filha Prazer.

Desde os gregos, que influenciaram outras cosmovisões, míticas religiões, outras mitologias, a Alma (Psique) separada do corpo, habita-o, anima-o, Ânima dominando a animalidade corpórea.

A partir do século passado, com a Psicologia racionalizada em área do conhecimento, Psique passa a designar – como parte inseparável do suporte corporal de homens e mulheres -, a capacidade de aprendermos, de nos adestrarmos para o convívio social, por intermédio de defesas que desenvolvemos na Psique de cada ser humano, como a sublimação, a negação, a adaptação, entre outros. Em grego, o vocábulo Psique também designa a borboleta, mas não cabe aqui tamanha digressão.

Disso trata a peça encenada nos últimos dias no Teatro Leblon, Rio de Janeiro. Trata da vida de cada um de nós, resultado da eterna relação entre o Amor e a Alma, da eterna viagem em direção ao Prazer, das provações que a Alma de cada um de nós, padece – por culpa da Inveja, da Raiva ou das flechas de Anjos, pouco importa para o resultado – para que continuemos em busca da filha de Eros e Psique, a neta de Afrodite que a civilização ocidental denominou Prazer, seja como luxúria, seja como catarse.

Fiquei impressionado com a qualidade da montagem, com a reconstrução do mito produzida por dedicados atores amadores de várias idades e pela profissional experiente responsável diligência da querida por eles, Cássia Foureaux, idealizadora, autora e diretora do espetáculo. Emocionei-me com a força dramática da interpretação de Antônio Villanova – Abstração -, ao nos apresentar um lindo Eros atormentado entre a mãe e a amada. E, óbvio, fiquei estupefato diante da beleza da minha Afrodite e da força que emprestou ao seu personagem (substantivamente sobrecomum). Havia ali, naquela interpretação da Bá, uma eloquência das virtudes do teatro para a formação daquilo que somos, daquilo que queremos ser.

A alma só se manifesta através do corpo por ela animado.

Em direção ao Prazer seguimos, cada um ao seu modo, nossas viagens com Eros e Psique. Uns vão reto, certeiros como os dardos de Cupido. Outros, como nós, preferimos errar como erram as borboletas, em direção ao alvorecer, por longos meses, em direção ao lugar onde – todos os dias, nos lembrando da existência de Cronos – nasce o sol.

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Há um ano

Há um ano cruzamos a primeira fronteira de Nossa Grande Viagem. Podem imaginar nossa ansiedade?
Não era menor da que sofremos nestas vésperas do início da etapa Europeia.
Revisada, a Lola nos espera em León, Espanha. Ganhará do Papai Noel correntes para os pneus. Está nevando bastante nas montanhas da Cantábria, do País Basco e dos Pirineus, nossos primeiros destinos.

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Arrumando a mala (no singular), a papelada e as leituras (no plural) para a próxima etapa.

Celebridades!

Na entrada do cinema, em Curitiba, fomos abordados pelo Diego, a quem não conhecíamos. Simpático, disse que estava seguindo Nossa Grande Viagem, e quis tirar uma selfie! Adoramos!

Ficamos amigos. Ele e sua companheira afetiva mantém um blog divertido!

Tomara que ele poste a selfie!

Ele é da luz, nada a ver com o lado escuro da Força. Alguém sabe qual filme fomos assistir?

https://www.facebook.com/viajantesporopcao/

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Xixo Wilson e seu filho Francisco. Para quem ainda não os conhece, pode acompanhar suas aventuras pelo mundo na página Nossa Grande Viagem:https://www.facebook.com/Nossa-Grande-Viagem-476918712450520/

 

Chocottone, ganhos e perdas.

Viajaremos da Espanha aos Balcãs por quase dois meses, confinados na Lola sempre que não estivermos batendo pernas. Serão uns 4 ou 5 mil quilômetros, mais de 30 hotéis diferentes, em oito ou dez países, logo depois do Natal.

Voltaremos uns “bichos-de-goiaba”, branquelos a ponto de assustarmos os amigos curtidos no verão brasileiro, que certamente estarão bronzeados. Suas saudáveis aparências estivais contrastarão com nossos lábios cortados, peles ressecadas pelos ventos de altitude, gelos e neves com os quais conviveremos até depois do carnaval. Perderemos o verão!

Por enquanto batemos massa de chocottone em casa. A Bá e seu pai ficarão dois meses sem cozinhar e, por antecipação, resolveram se entregar às farinhas, aos ovos e aos fermentos, às panelas e às formas com a mesma intensidade de sempre.

Agora a massa descansará por 24 horas na geladeira. Depois, por 3 horas crescerá dentro das forminhas de papel, para então irem ao forno.
Provar como ficaram só mesmo na segunda-feira. Uma trabalheira !

Alguém perguntará: não é mais fácil comprar pronto no Cacau Show ou na Kopenhagen?

Quem formular essa pergunta ficará sem resposta. A simples formulação da questão já evidencia que a contestação adequada jamais seria completamente compreendida.

A resposta mais fácil é a metafórica: seria sim mais fácil viajar de avião e em escursão de ônibus, em cada país, dando a mesma volta ao mundo. Mas seria outra, não a Nossa Grande Viagem. A nossa, aquela da qual vocês são partícipes, às vezes acontece em frente a uma batedeira elétrica, a um forno ou a um fogão.

É mais fácil, dá menos trabalho, comprar chocottones prontos, mas não teriam o mesmo gosto. É mais fácil pedir pizza por telefone do que preparar um jantar em pleno final de semana.

A vó Janette, atenta, fiscalizou tudo! Conhecer esse sabor, estar sensível a ele, não tem preço.

Mais tarde faremos risoto de aspargos frescos, alho poró e cogumelos paris, com arroz arbóreo. Querem carona?

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É fácil entrar com o carro na Europa?

Sabendo que estamos retomando nossa volta ao mundo logo depois do natal alguns amigos perguntam se foi difícil ingressar com a nossa LAND ROVER DEFENDER na Europa.

Resolvi simplesmente reproduzir aqui o relato que fiz ao Fran e à Bá na noite da liberação. Depois de cinco dias “batendo cabeça”, seguindo orientações do Despachante, resolvi ir diretamente à Alfândega, com Ricardo Franco Pinto, amigo advogado em Leon, Espanha, e com o Eduardo Ramos, meu sobrinho que faz intercâmbio em Portugal.

Eis o relato, sem correção, para que reste autêntico:

“Hoje o dia foi pesado. Desde as 9 já estávamos em contato com o despachante. Ele pediu que ligássemos em uma hora. Às dez disse que a “doutora” que analisaria o processo estava acompanhando uma comitiva de Cabo Verde, mas que sabia que o parecer da assessoria era favorável. Pediu que ligássemos ao meio-dia.
Desde as 11:50 comecei a ligar e o sujeito não atendia. Saiu para almoçar, pensei, mas não desisti. Liguei de 15 em 15 minutos até as 14:30, quando finalmente consegui.
Disse que estava difícil, que a doutora não havia assinado ainda. Não era certo que analisasse hoje.
Ficou de me ligar quando tivesse novidade. Perguntei se eu poderia ir lá. Ele foi categórico: a doutora é complicada, pode se sentir pressionada e se irritar conosco.
Às 15:00 liguei e novamente não tinha novidades.
Às 15:50 acabei conseguindo contato.
Balde de água fria: não sairia mais hoje. Não daria mais tempo de pegar o carro, que o empregado dele estava lá, e continuava desaconselhando nossa ida até lá.

Desalento, desânimo. Olhar parado.
Dois minutos em catatonismo e decidi: pior que tá não pode ficar, vamos até lá.

Sabíamos que, pelo horário, talvez nem encontrássemos ninguém lá. Mas não poderíamos nos resignar. Afinal, tampouco o despachante dava garantias de que o carro sairia na segunda.

Fomos.

Claro que o GPS nos levou para o endereço errado, que era longe de tudo, que demoramos quarenta minutos até chegar na Alfândega Marítima de Lisboa.

Mais 20 minutos até conseguir falar com a fera, o demônio encarnado, a doutora complicada.
Não era. Foi super simpática.

Pessoalemente, saiu da sua sala e nos conduziu de repartição em repartição, que obviamente, passado das 17 horas, estavam quase desertas.
E … claro … O sistema caiu … Voltou, mas voltou lento.

Então a doutora simpática nos aconselhou: enquanto isso poderíamos providenciar a “declaração verbal”. Ótimo, respondi. A quem devo declarar ?
A doutora riu e me ensinou: aqui em Portugal a declaração verbal tem que ser feita por escrito. E em um formulário que se compra na tesouraria!

A tesouraria, 17:30, já estava fechada.

Atenciosa, saiu da sala novamente e entrou na tesouraria e surrupiou um formulário para nós.
E completou à caneta os espaços vazios (primeira foto).

Por telefone conseguimos contato com o despachante que havia nos dito que não adiantava irmos lá porque a “doutora” era uma fera. Convocamos ele para que voltasse até a Alfândega.
Chegou quase às 18 horas, quando já estávam fechando tudo.
Obstinados, seguimos insistindo em anteciparmos os passos para deixarmos menos coisa para a segunda. O despachante, com cara de despachante, nos olhava com impaciência, quase raiva, mas fingimos que não percebíamos.

A demônia, a “doutora complicada” foi extremamente profissional e, além disso gostou de nós, ficou amiga no feice, curtiu a página…

Em resumo, terminou que a doutora complicada, a fera, o demônio, nos ajudou, colheu todos os carimbos. E … Finalmente, liberou o carro. E sem termos que fazer o depósito da caução! E ainda: por seis meses!

Dali corremos até a Ever Green para pagar pelos serviços deles e para contratar o frete que retirará o conteiner do porto e o levará até a doca provada onde, finalmente, o conteiner poderá ser aberto.

Na Ever Green, todos estavam saindo, mas nos esperaram e, já fora de horário, conseguiram contratar um caminhão que – para nossa surpresa – tentará retirar o nosso contêiner ainda antes das 22horas.

Há uma remotíssima chance de isso acontecer. Se acontecer talvez pudessem nos entregar o carro amanhã à tarde. Mas não podemos contar com isso. E nem adiantaria, pois não conseguirmos mecânico no sábado à tarde ou no domingo.
O certo é que na segunda, em algum horário, o carro estará na oficina e que na terça cedo, dia primeiro, poderemos chegar em Leon.”

Esse foi o relato feito aos meus filhos naquela noite.

O container realmente saiu do porto tarde da noite de sexta e no sábado conseguimos retirar o carro e conseguimos um mecânico para instalar o alternador novo.

Parecia que nossos problemas haviam terminado. Mas nunca terminam, já perceberam, né?

Quem pode ter problemas também é o Despachante português, com a Doutora da Alfândega, já que talvez ela leia este post (risos). Se isso ocorrer, ele merecerá.

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Um abraço, um simples abraço.

Deixei tudo e vim para a formatura da Bá. Conspirando com o Fran a supreendemos minutos antes do início da linda cerimônia de conclusão dos nove primeiros anos do ensino fundamental, na Escola Parque, no Rio de Janeiro. Ela chorou, me abraçou como só ela sabe fazer, e riu, como só ela sabe rir. Deslumbrante. Eu chorei e segui chorando a cerimônia toda, o dia inteiro. Meu alvoroço emocional só se acalmou tarde da noite, com minha filhota dormindo no meu sovaco, no compasso de sua respiração serena. Não consegui não-vir e fiz bem.

No filme A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, o protagonista sexagenário faz um balanço das relações que mantém. Pelas tantas se sai com algo sobre, naquela idade, não precisar mais estar onde não quer estar quando o vazio da vida fica excessivo, cheio do mesmo, do de sempre, um vazio repleto de irrelevâncias.

Todos podemos sair de onde não queremos estar, deixar aquilo que nos incomoda. Reunir forças para ter coragem de não-ficar, contudo, não é nada fácil. Olhar para o vazio dentro de nós, perceber a desimportância das vaidades, constatar o ridículo na soberba dos outros, da ganância, da obsessão pelo reconhecimento alheio, é um passo importante, mas não suficiente. Muitos querem não-ficar; poucos não conseguem não-ir.
Tocar um “explodam-se” e ir, não-ficar, nada tem de intempestivo ou de surto. Muito embora haja um momento, um preciso átimo, em que você levanta e vai, a decisão de não-ficar, de não suportar mais ficar, já foi cosida e cozida, lentamente. Não é rompante. Há quem jamais se permitirá “não-ficar quando não quer”, muitos desde seus vazios escolherão não-ir sublimando desejos, por falta de coragem ou porque, no fundo, se realizam naquilo que vivem, no vazio das artificialidades que construíram. Não merece ir quem não consegue desapegar.

Desejar não é um direito subjetivo já assegurado, reconhecido, respeitado. É uma possibilidade. Para poder desejar a vida cobra o direito a ter direito de desejar, cobra o dever de lutar para ter o direito de desejar. O dever de respeitar o direito dos demais lutarem pelo direito a terem direito de desejar é condição para poder não-ficar, para não conseguir não-ir sem remorsos, sem culpas.
Ir, simplesmente ir, por não conseguir não-ir, não por não suportar mais ficar, mas por se dar ao direito de não-ficar. Nem todos conseguirão perceber a brutal diferença entre essas predisposições que parecem, apenas parecem, jogos de palavras.

Dou-me o direito de não-ficar se não quero ficar, de dizer “não-vou-por-aí” – Cântico Negro, “não principio nem acabo” – porque deixei de sublimar desejos realizáveis, porque não consigo não-ir ou não-vir quando ordena meu sentimento.

Poderia não ter vindo. Seria razoável não ter vindo, não precisava ter vindo. Vim porque meu peito mandou; porque não consegui não-vir. E tive uma das melhores emoções da minha vida quando a Bá me abraçou.

Experimente abraçar a quem você ama, com calma, sentindo carnes, músculos, texturas, os macios por sobre os ossos. Sinta o cheiro do cabelo ou de perfume, a maciez de bochechas que se encontram, o roçar das peles, os silêncios cúmplices. O que você tem a perder além deste vazio que te desumaniza?

Não interrompi a Nossa Grande Viagem para vir abraçar minha filha. Esta é a nossa grande viagem e sempre com as fotos do Fran, do melhor cúmplice que um pai poderia ter

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Saudades que dóem.

12313635_717108195098236_8953204597493458558_nO fotógrafo da Nossa Grande Viagem, aos 15 anos, teve sua primeira foto publicada na National Geographic. A irmã e o pai ficaram orgulhosos. Mas o motorista da Lola não pode abraçá-lo, não pode urrar de alegria junto com o piá (http://viajeaqui.abril.com.br/ma…/sua-foto-novembro-de-2015…).

A Bárbara, aos 14 anos, terá sua formatura no primeiro grau agora no próximo sábado e está nos ensaios finais da peça de teatro que vem ensaiando nos últimos meses. E o pai não estará com ela. Não poderá dizer-lhe “merde”, nem entregar-lhe um ramalhete ou simplesmente piscar para a criaturinha encantadora.

Talvez por estar hospedado em um monastério, no meio do Caminho de Santiago, talvez porque a Lola tenha demorado tanto para chegar à Europa, talvez porque circunstâncias objetivas tenham frustrado planos que haviam sido erigidos para os próximos dias, meses e anos ou talvez porque eu não consiga mesmo ficar muito tempo longe “das crianças” acordei no meio da noite, aqui em León, norte da Espanha, com uma saudade doida, doída, dos meus companheiros de viagem.

No dia 26 de dezembro sairemos novamente os três chacoalhando de jipe, pela Europa (já que o Oriente próximo não se configura exatamente muito convidativo), para mais dois meses de aventuras, gargalhadas e emoções, as mais sinceras que possam existir.
Bálsamo que consola, como ao personagem que eternizou Saint Exupéry que por saber que haverá o encontro às quatro da tarde, desde as três começa a ser feliz, descobrindo o preço da felicidade, da felicidade com hora marcada.

Estou com muitas saudades dos meus filhotes.

Um edifício, várias relíquias.

Aqui está o chamado SANTO GRAAL, a cuia onde Jesus da Galiléia teria bebido na última ceia. Resumindo a história: a cuia, em ágata, e sua tampa foram escondidas – logo após o aquele jantar famoso – no sepulcro de onde, segundo o mito, ressuscitou Jesus. Essa relíquia teria sido apropriada pelo Califa do Egito ainda no século I. No século X esta cuia teria sido vendida para um Emir da região de Valência. No século XI este Emir a teria oferecido como presente ao Rei de León, como prova de amizade.

As duas cuias foram montadas pelo ourives do rei em forma de cálice, a parte maior com a boca para cima, a tampa com a boca para baixo, em ouro encrustrado de pedras preciosas, naquela oportunidade. Este cálice está exposto no mesmo edifício em que nos hospedamos. Se as cuias em ágata foram ou não utilizadas por Jesus jamais se saberá, mas é certo que as cuias que foram transformadas em cálice são mesmo do século I e que as duas foram montadas em formato de cálice em torno de 1050. Visitei o cálice. É bonito.

Pouco tempo depois a filha do mesmo Rei de León que havia ganho as cuias e mandado fazer o relicário em torno delas e que mandou construir a igreja contígua ao palácio resolveu que precisava de mais relíquias para aproveitar o fluxo de peregrinos que se dirigiam para Santiago (o caminho passa em frente à igreja obviamente). Para atrair mais fiéis e, portanto, para arrecadar mais dinheiro, resolveu comprar restos mortais de santos. Ofereceu ao califa de Sevilha uma grana preta pelos de Santa Justa, mas os emissários clérigos não puderam se assegurar de que aqueles restos mortais que o Califa estava vendendo eram mesmo de Santa Justa. O Califa então ofereceu uma caixa de prata com os restos de São Isidoro de Sevilla. Feito o negócio, a igreja do palácio foi consagradra a São Isidoro. Visitei a caixinha de prata e o túmulo da moça que comprou a relíquia. Naquela época mouros e cristãos comerciavam bastante, sendo as guerras meros episódios nas relações que mantinham. Lembremos sempre que os muçulmanos ficaram na península ibérica 800 anos, até serem expulsos na segunda metade de 1400.
É bem verdade que se tinha o Graal a igreja não precisaria dos ossos de Isidoro. Mas me disseram que na época não sabiam que era o Graal . Não achei muito lógica a resposta (então por que fizeram o relicário em torno das cuias, em forma de cálice?), mas nunca fui muito bom nisso de acreditar nas respostas esotéricas.

O prédio, contudo, tem uma outra peculiaridade histórica: foi em seu interior onde pela primeira vez, em 1288, se realizou uma assembleia com a participação de comerciantes e artesãos votando, juntamente com os nobres e com os clérigos. Daí porque León é considerada o “berço do parlamentarismo”, cuja veracidade dos relatos históricos é atestada pela Unesco.

Nos hospedamos neste edificio de tantas histórias, meu afilhado e sobrinho Eduardo e eu, na chamada Casa Espiritual. Aqui vivem religiosos e se acolhem peregrinos a caminho de Santiago. Também aqui são albergados turistas ordinários como nós, desde que apadrinhados. Nossa Madrinha foi Daniele Leoz que certamente merece canonização por suportar o marido Ricardo Franco Pinto (risos).

Sobre o Graal e sobre os ossos de Isidoro a Unesco não se pronunciou. Sobre a santa paciência da Dani, deveria.

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A Lola chegou! Hora de agradecer.

Foram 85 dias de espera, mas chegou inteira.

No dia 03 de setembro entregamos a nossa Defender na Schumacher Logistics em New Jersey, noa EUA. A burocracia estadunidense para embarcar uma Land Rover no container que a traria para a Europa foi kafkiana. Invocaram com tudo: com o modelo do carro, pois não importam Defenders desde 1986, com o fato de não ter ficado nos EUA até que o carro fosse embarcado. Em todo esse procedimento fui auxiliado pelo amigo Kiko Altoe Alves Soares que trabalha com o Claudio Ziegler arquiteto em New York. Sem o Kiko teria sido muito mais difícil contornar a burocracia gringa.

Liberado o embarque em 27 de outubro, mais de 50 dias depois, tivemos que esperar que a Schumacher enfim encontrasse um navio para Portugal.

Depois de ser informado que o primeiro navio disponível chegaria à Europa somente em 22 de novembro, novo susto: disseram que o navio iria até Rotterdam e que só chegaria em Lisboa em Dezembro. Protestei, reclamei, pedi ajuda para a Green Ibérica onde pude contar com o apoio de Ana Jesus e Claudia Magina. Ambas conseguiram fazer com que antecipassem o reembarque do nosso container em Roterdam.

Chegaria em Portugal no dia 24 e desmbarcaria em Lisboa, se a greve dos estivadores assim permitisse. Ou desembarcariam em O Porto, cidade 400 km ao norte de Lisboa.

Fui para Porto na data em que o navio com a Lola lá estivesse. Não quiseram desembarcar o conteiner lá, parece que a greve não teria ainda começado.

Tocamos para Lisboa de carro alugado e na companhia do amigo Ricardo Franco Pinto , que vive em León, na Espanha, e que veio a Porto para me auxiliar no que fosse necessário, pois exerce advocacia na Europa.

Chegamos praticamente ao mesmo tempo que a Lola em Lisboa, mas desembarcaram o container só na terça e desde então começou outro martírio. A Legislação portuguesa exige a contratação de um despachante para liberação das cargas.

Um dia contarei os detalhes, alguns curiosos, do que passamos até que na sexta, às 18 horas conseguimos enfim o último carimbo necessário. Sem a ajuda e a simpatia da Carla, funcionária da aduana, que andou pelos corredores com nossos papéis colhendo uma a uma as assinaturas, preenchendo enormes formulários, explicando de que se tratava, mostrando essa nossa página no feice, teria sido impossível tudo isso. A aduana não funciona nos finais de semana.

Mas a Lola não poderia sair rodando do porto. Seria necessário conseguir naquele horário um caminhão para retirar o nosso container do porto de Lisboa e levá-lo a uma doca para descarregamento. Novamente contamos com a ajuda da Green Ibéria (e agradecemos ao Pedro, à Fátima, à Ana e à Clàudia). A diligência de todos permitiu que jà tarde da noite de sexta o nosso container fosse retirado do porto.

No sábado, de forma extraordinária, fomos atendidos pelo Lourenço e pelo Nuno que nos ajudaram a tirar a Lola do container (contarei depois as dificuldades) e que liberaram seus empregados, o Careca e o Mário, os dois brasileiros, para nos ajudar.

Perto do meio-dia a Lola começou a rodar no Velho Continente cujo registro fotográfico bem ilustra a euforia de seu extenuado condutor. Mas havia outro desafio: consertar a Lola a tempo de seguir viagem.

Com um otimismo quase irracional desde a tarde se quinta já havíamos mais ou menos combinado com um mecânico que instalaria o alternador novo importado da Inglaterra com a ajuda do amigo Pedro Salgado . Deu tempo: pouco depois do meio-dia conseguimos chegar à frente da oficina. Portas fechadas, tudo apagado.

Novamente, ao invés de desistir, resolvi esmurrar a porta de aço da oficina e com este abra-cadabra delicado fomos ouvidos por quem ainda estava trabalhando, com a oficina já fechada ao público. E assim tivemos como enfiar a Lola para dentro para buscá-la três horas mais tarde. Novamente agradecemos ao mecânico João.

Em resumo, fomos ajudados por muita gente, por amigos antigos, por amigos recentes e por amigos que fizemos durante esses três meses em que ficamos longe da Lola.

Agradeço a cada um dos nominados e a todos os demais que ceramente permaneceram anônimos. Agora depois de devolver o Ricardo para a Dani em León com meu afilhado Eduardo Ramos rumaremos para o oriente por uma semana, onde encontrarei Veridiana e Caio antes de voltar ao Brasil para buscar o Fran e a Bá que, comigo, depois do Natal, chacoalharão dentro da Lola que estará embicada para onde nascerá o sol, por quase dois meses, até depois do carnaval.

Saudades do meu pai.

O Seu Ramos morreu há 15 anos e desde então nunca mais escutei a maioria das poesias que ele adorava declamar.
Jantando com a Prof. Elisabeth Accioly e com o Professor Ricardo Franco Pinto (de Leon), enquanto Eduardo Ramos dava uma “canja” com os músicos do restaurante, um poeta chamado César, declamou o lindo poema de José Régio, que meu velho adorava recitar, com dramática empostação de voz:

“Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí! pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí!”

A Beth, que foi afilhada de meu pai em seu casamento com o José Maurício, pediu que o Cântico Negro fosse dito. Para minha emoção, para minha memória.

E eu que tenho a consciência de que principío e que acabo (daqui a menos tempo do que gostaria), só sei que vou por aí, “por onde
Me levam meus próprios passos…”

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Com o amigo Fernando Araujo em Lisboa derivamos para conversas de cunho existencial.

Seríamos corajosos na obstinação de darmos a volta ao mundo para ver de perto?

Corajosa é a freirinha que, paramentada, toma uma avioneta no interior da África dirigindo-se ao interior profundo para atender a enfermos por ebola?

Corajoso é o militante do ISIS que coloca um cinto de explosivos e se explode?

Corajoso é o caboclo que mata um cabrito à dentadas em seu ritual?

Corajoso seria o militante antinazista que tentou assassinar Hitler, ou corajoso mesmo seria o assassino de Kennedy? Ou o assassino do assassino de Kennedy?

Quem matou o John Lennon ou quem tentou esfaquear o papa?

Isso não é coragem, é fé. Só quem tem fé é capaz de tamanhas atrocidades.

A fé, esta fé confundida com coragem, mata . Mata os corajosos. Às vezes mata quem não tem a menor possibilidade de ter fé ou de ter coragem.

Não temos essa coragem, não somos psicopatas. Viajamos porque temos que viajar, com cautela e responsabilidade. Pelos próximos meses, em direção ao sol nascente.

Uma amiga, preocupada porque o filho de 15 anos virá à Europa, pergunta-me se está seguro viajar para cá.

Respondi

“Não vejo um risco iminente de a Europa desandar para uma violência generalizada. Acho que os jornais exageram muito.

Estarei na Europa com meus filhos de 27 de dezembro a 13 de fevereiro. No mesmo periodo. Irei aos Balcãs. Se tivesse a percepção de algum risco maior seguramente eu não iria.

Sinceramente, o risco não é maior do que ir para qualquer grande cidade, em qualquer continente.

Muito por conta do que diz a mídia há um aumento visível no policiamento das ruas, das praças, nas proximidades dos monumentos.

Esse aumento da visibilidade do aparato repressivo, curiosamente, produz efeitos contraditórios: objetivamente torna os lugares mais seguros; subjetivamente causa insegurança ao nos relembrar os atentados de Paris.

Deixe o piá viajar! “

Não somos corajosos, somos racionais.

Amigos em Lisboa

Enquanto controlamos a ansiedade decorrente dos demorados trâmites alfandegários para retirarmos a Lola do contêiner aproveitamos para rever amigos em Lisboa.

Hoje almoçamos com o Prof. Fernando Araújo (da Universidade de Lisboa) para, como sempre, aprendermos com as agradáveis conversas que mantivemos.

Esta noite jantaremos com a Professora Elisabeth Accioly (Universidade Lusíada) e seu marido. Mais uma oportunidade para trocarmos afetos, lembranças (e para falarmos mal dos ausentes).

Nas janelas e nos peitos.

Vejam só o que o amigo Thiago encontrou no vidro de um restaurante de posto de combustíveis na Patagônia.

Parece que já faz tanto tempo! Há menos de um ano saímos para nossa volta ao mundo. Em nuestra América estivemos no fim do mundo duas vezes: em janeiro em Ushuaia, em maio lá no Alaska. Mais de 120 dias entre um extremo e outro. E nenhum incidente grave, nenhuma situação arriscada.

Agora, enquanto lidamos para liberar o container com a Lola em Portugal nos damos conta de que desde a partida em 21 de dezembro de 2014 a Nossa Grande Viagem mudou não apenas as nossas percepções sobre a insignificância das vaidades e dos “reconhecimentos”, de que restaram alteradas não apenas as coordenadadas no GPS. Há uma mudança substancial que não havíamos previsto. Mudou o mundo!

Obviamente o mundo já era assim, mas os incidentes internacionais recentes nos descortinam um mundo mais feio, mais violento, mais perigoso. Menos charmoso.

A França que cruzaremos dentro de alguns dias não será aquela que romantizamos, que sonhamos degustar e cheirar em paisagens outonais, amarelentas e ocres sobre marrons, cariz e noz. Atravessaremos uma França quase vichyniana, sobria, abrumada pelo nível 5 de alerta de novos atentados terroristas.

Se a França não é mais aquela, das nossas idealizações, imaginem o resto, os demais paises europeus. A contra-ofensiva do Estado Islâmico às bombas que a Europa e seus aliados lançaram em uma guerra que não era sua instaurou o medo, a desesperança, o terror na sociedade francesa neste final de ano, e em todos os seus vizinhos. Mesmo nos moradores em países cujos governos não “buliram” com o ISIS. O mundo que cruzaremos mudou.

Tentaremos colar mais adesivos pelo caminho, nas janelas que encontramos abertas à possibilidade de decalcarmos nossa experiência. Como peito aberto e destemor. De mentes abertas.

Deixar-se atemorizar tambem depende de uma decisão. Decidi não me intimidar. Lembram? Decidi ser feliz. Quem topa?

Agora começam os trâmites alfandegários!

Greve de estivadores em Lisboa

“We were advised of a Stevedores’ strike at Lisbon. This booking’s final destination is Lisbon.. I believe my agent in Portugal has been trying to contact your consignee but with no luck to see what they want to discharge this ctnr..Can u try to contact your consignee and have them respond to my agent in Portugal ?

Thanks!

Allison Taylor
Evergreen Shipping Agency (America) Corporation
As Agents for Evergreen Line
Northeast Region Office
Customer Service Division
Traffic Department
Export Section
Tel: 201-761-3489″

Chegando em Portugal para, finalmente, buscar a Lola.

Entregamos a nossa Defender no agente portuário em New Jersey no dia 03 de setembro. Tudo o que podia dar de errado acabou acontecendo.

Quase três meses depois soube que o navio com o container onde está nossa Land Rover ingressou em águas portuguesas.

Mas como nada pode ser tão fácil, há uma greve no porto de Lisboa. Talvez tenham que desembarcá-la em Leixões, cidade de Porto, a mais de 300km de Lisboa, para onde viajarei daqui a pouco.

A partir da próxima semana, espero, começarei a travessia da Europa e da Ásia.

Como pitada de emoção haverá a travessia da França, com as fronteiras fechadas e super vigilância nas estradas em decorrência do criminoso atentado da semana passada praticado pelo Estado Islâmico. Nada comparado às verdadeiras emoções que nos esperam quando estivermos cruzando o Oriente Médio.

Tenho a impressão de que a escolha da época para dar a volta ao mundo de carro não tenha sido a mais propícia (risos).

Do tempo em que eu usava gravata.

O FB me lembrou desta postagem de dois anos atrás. Na época a foto ilustrava o seguinte texto:

“Com os Ministros do TST Delaide Miranda Arantes e Luiz Philippe Vieira de Melo, ao lado de meu querido amigo Marcio Tulio Viana, grande homenageado por Jose Eymard, Nilo Beiro e Eduardo Surian Matias, em Brasília. Afetos e aprendizado.”

Dificilmente voltarei a usar gravata. Parece que faz tanto tempo, e, contraditoriamente, parece que foi ontem.

Metamorfose ambulante.

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Nossa Grande Viagem se solidariza com as vítimas da irracionalidade.

É difícil se posicionar de modo adequado diante da barbárie, sob o impacto das emoções. Principalmente quando se é bombardeado pelas pré-compreensões da “opinião publicada”. Aqui na Europa não se falou de outra coisa desde ontem.

Pensar nas vidas interrompidas pela crença em deus proporciona vertigens.
Por que morreram esses franceses?
Porque havia gente que acreditava em deus e em Seu nome assassinou.
Mas seria só isso? Não. A crença em deus, como sempre ao longo da história, mata. Mata de modo legitimado pela fé. Mas há mais.
Se os estadunidenses não tivessem votado no Bush filho, na ideologia da extrema direita mercadófila, não teria havido a invasão do Iraque. Sem ela não haveria o Estado Islâmico – ISIS.
E como a França entra nessa história? O presidente Holande para defender os interesses capitalistas ordenou o bombardeio, por soldados franceses, do território ocupado pelo IBIS. Seguramente a iniciativa terrorista, assassina, da República Francesa assassinando civis árabes com suas bombas atiradas covardemente dos céus, com os jatos Raffale, matou bem mais inocentes que os atentados de ontem.
Todavia, chumbo trocado dói, sim.

Provocaram crentes imbecilizados pela fé em deus e eles reagiram. Foi desproporcional? Como se mede a proporcionalidade da agressão injustificada? E os que começaram tudo isso, a Direita estadunidense, faz de conta que não tem nada com isso.
A crença no Mercado aliada à crença em deus é ainda mais assassina.
A dor das famílias dos sírios e iraquianos assassinados pelas tropas estadunidenses e francesas não é nem maior nem menor que a dor dos familiares e amigos dos franceses assassinados ontem.

Todas as vítimas da irracional crença no esotérico, todas as vítimas do terrorismo praticado pelos EUA, pela França e pelo ISIS merecem a minha, a nossa, solidariedade. Choro por estas vítimas, mas não rezo por elas. Seria cúmplice dos algozes se o fizesse. Afinal, os mortos em Paris, foram assassinados porque houve quem estivesse disposto a matar (ou a viver) pelo seu deus. Se pelo deus certo ou pelo deus errado é irrelevante.

Que tristeza presenciar esse retorno à era das trevas …

Sempre há um jeito. Resignação não é com a gente. Nunca foi.

Vamos rememorar a “novela” do envio do nosso carro dos EUA para a Europa:

1) contratamos uma empresa estadunidense para enviar nossa Defender, a Lola, de New Jersey para Lisboa. O nome da empresa é Schumacher.
2) entregamos o carro em seus escritórios no dia 03 de setembro e saímos com a promessa de que a nossa Land Rover chegaria a Portugal em duas, no máximo três, semanas;
3) viajamos para a Europa no dia 09 de setembro, seguros que antes do início de outubro já estaríamos a caminho do Leste Europeu.
4) por volta do dia 20 de setembro fomos informados que o carro ainda estava nos EUA “enroscado” na burocracia alfandegária. Exigiram declarações, documentos e promessas.
5) superados os entraves aduaneiros estadunidenses, no início de outubro, fomos informados que, sim, o carro havia sido liberado para embarque. Finalmente o carro seguiria, em um container, para Lisboa. Todavia, nos disseram que “o primeiro navio para Portugal” sairia dos EUA somente no dia 27 de outubro, ou seja, somente dali a quase três semanas.
6) lamentamos e procuramos saber se não poderíamos enviar o carro para outro porto europeu, em um navio que partisse antes de 27 de outubro. Novamente nos informaram que, em tese, seria possível, mas teríamos que reiniciar todos os trâmites aduaneiros, os mesmos que haviam nos atrasado a viagem em quase dois meses. Melhor não, né?
7) com o embarque do container com a Lola em New Jersey, nova decepção: o navio só chegaria em Lisboa no dia 22 de novembro, mais de três semanas depois da partida do navio lá no porto nos EUA. Já estávamos nesta lida hávia quase três meses, mas nada nos tiraria o bom humor;
decidimos alugar um carro para percorrermos a Sicília e o sul da Itália até o dia 20 de novembro. Replanejamos de modo a que pudésemos retirar o carro em Portugal, no dia 23 de novembro, e atravessar a Europa ocidental até Eslovênia, ou até a Austria, em duas semanas, mais ou menos até o início de dezembro. O carro ficaria estacionado em algum lugar seguro no período entre 10 e 26 de dezembro, período em que o motorista da Lola combinou estar no Brasil para compromissos acadêmicos, profissionais e familiares;
9) há alguns dias recebemos a notícia de que o navio com o container com a Defender chegaria em Roterdã, na Holanda, no dia 19 de novembro. Rapidamente fizemos contato com a Green Ibérica, empresa parceira da Schumacher em Portugal, agente da Evergreen Lines, responsável pela entrega do carro na Europa. Soubemos que em Roterdã o container seria transbordado para outro navio que se destinasse a Portugal.
10) finalmente hoje, 13 de novembro, fomos informados que não há qualquer possibilidade do navio com a Lola chegar a Lisboa ainda em novembro. Talvez no início de dezembro, talvez um pouco mais tarde.

Como assim? Já estou com passagens compradas de Paris para Curitiba no dia 10 de dezembro! Esperava o carro ainda em setembro! Prometeram que, se eu concordasse em que o carro saísse dos EUA somente no dia 27 de outubro, o navio viria diretamente a Portugal! Nunca mencionaram que o navio passaria em Roterdã antes de ir a Portugal! Se soubesse que iria para a Holanda teria combinado de retirar o carro no porto de Roterdã! Uma incompetência privada atrás da outra! Aparentemente todas as trapalhadas podem ser atribuídas à empresa estadunidense, a Schumacher!

E agora?

Duas possibilidades. Os simpáticos profissionais das empresas portuguesas, da Green Ibérica e da Evergreen Lines, estão envidando esforços para que eu possa retirar o carro na Holanda, mas dependemos da boa-vontade dos holandeses, já que a documentação da Schumacher prevê o desembarque em Lisboa. Temos que conseguir isso até quinta-feira. Sendo possível, voarei de Roma até a Holanda daqui a uma semana, no dia 20 de novembro.
Se não conseguirmos, paciência, teremos que esperar o carro chegar em Lisboa ! O problema é que só saberemos quando chegará em Lisboa lá pelo dia 22 ou 23 de novembro, depois que o container for reembarcado em algum navio que vá para Portugal. E pode ser que, coroando vários azares, este navio só chegue no período em que eu havia previsto estar no Brasil, ou seja, que o container com a Lola chegue em Portugal depois do dia 10 de dezembro.

Fala sério, adianta planejar? Quem nos segue há algum tempo já sabe que em uma Volta ao Mundo sempre se planeja tudo para fazer tudo diferente do planejado.

E o mau-humor?
Adianta ter mau humor? Claro que não. Como em outras dimensões da vida a graça de tudo está em pensar em um plano B, um plano C, etc. Há uma vocação autoritária e ingênua na pretensão de controlar, via planejamento, todas as variáveis. Isso é impossível! A arte está em conseguir, rapidamente, contornar as adversidades, os obstáculos, as dificuldades, e resolver os problemas que forem surgindo, com os menores custos (econômicos, financeiros e emocionais) possíveis. É assim nas nossas relações sociais e familiares, nas nossas empresas, nas nossas atividades profissionais. Por que haveria de ser diferente em uma Grande Viagem ao redor do Mundo?

Não custa nada torcer por nós. Seria muito melhor se pudéssemos retirar o carro ainda em novembro no porto holandês. Não seria tão ruim se o carro chegasse em Lisboa até o dia 03 ou 04 de dezembro, daria tempo de levar a nossa Defender pelo menos até Paris, onde chegarei com Francisco e Bárbara no dia 27 de dezembro. Será horrível se o carro só chegar a Portugal depois do dia 10 de dezembro. Mas se isso ocorrer, daremos um jeito.

Até porque, depois dos atentados de ontem em Paris, cuja autoria é atribuída ao Estado Islâmico, está ficando cada vez menos aconselhável a pressa em cruzar por aquela parte do mundo. Pelo menos nos próximos meses.

E se ao invés de irmos para o oriente agora decidíssemos virar o nariz da Lola em direção ao sul, descendo a África pelo lado de lá, pelo Egito, até a África do Sul, subindo pela costa atlântica em direção ao Marrocos? Cruzar para a Índia poderia ficar para 2017 … Teremos tempo para pensarmos nisso enquanto a Lola não chega.

 

A Lola está chegando!

No dia 19 haverá o transbordo: o container em que ela está será transferido, no porto de Roterdan, na Holanda, para o navio que o levará a Lisboa.

Pelo conteúdo da última mensagem temos arrepios só em pensar na burocracia para desembaraçar a viatura no porto.

Enquanto isso vamos peripateticamente seguindo os passos de Platão.

Embarcando para a Europa para esperar a Lola com um alternador novo e outros mimos. Ela já está a caminho.

Depois de 57 dias

(Sim, intermináveis cinquenta e sete dias!) a Lola, nossa Defender 110, finalmente está a caminho da Europa.

Para nossa decepção tardará 25 dias para, partindo de New Jersey, EUA, chegar ao Porto de Lisboa em Portugal.
Quase TRÊS MESES !

Quem nos segue há algum tempo acompanhou o enredo burocrático estadunidense. Foi a pior fronteira até agora, e, curiosamente, para sair (sim, sair) do país com o carro.

Todos temos amigos ou conhecidos que adoram falar mal do Brasil e elogiar os Estados Unidos. A esses sem-noção chamamos de vira-latas, só para sacaneá-los (risos). A burocracia nas fronteiras e aduanas é infernal em qualquer país, mas nada se compara ao que passamos para sair dos EUA.

Agora teremos que enfrentar a entrada com o carro na União Europeia. Tomara que seja mais fácil.

Como sabemos que a Lola chegará em Lisboa no dia 22 de Novembro já contrataremos o seguro e cuidaremos da licença temporária (uma placa provisória) de modo a agilizar o desembaraço portuário.

Já podemos voltar para a Europa! Esperaremos a Lola com flores e com um alternador novo!

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Brinquedo novo. Defender 110 ano 2003.

Com 80.000km. Para ficar em Curitiba enquanto damos a volta ao mundo com a Lola. Não contem para ela.

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Curdistão

Ficamos encantados com a generosidade de Michel Coeli. Suas dicas para nossa travessia pelo Curdistão foram essenciais. Estamos nos preparando para cruzar uma das regiões mais conturbadas do planeta, no contra-fluxo da emigração que não é somente Síria. Mas para chegar à Índia de carro as alternativas não são muito melhores que esta de sair pela Turquia, entrar pelo Curdistão, um país que não existe mais, pelo norte do Iraque e, evitando a área dominada pelo ISIS, entrar rapidamente no Irã.

Demais disso, desfrutar de sua fina inteligência e arguta percepção da realidade foi realmente um privilégio. Não deixem de assistirhttp://g1.globo.com/…/michel-coeli-conta-como-e-a-…/4345117/ .

Michel Coeli com Bárbara Proner Ramos e outras 2 pessoas.

Imagina dar a volta ao mundo em um carro? É isso que Xixo de 57 anos e seus filhos, Francisco e Barbara, de 15 e 14 estão fazendo. Eles tem um projeto lindíssimo chamado Nossa Grande Viagem e tivemos um encontro agradabilíssimo onde falamos por horas sobre nossos amores incomuns: viagens, cinema, fotografia, e claro, Land Rover Defender.

A vida é feita de escolhas, e sem dúvidas, uma das que mais me movem são as de tentar conhecer e registrar cada pedaço desse complexo e bonito planeta.

Muito inspirador conhecer vcs.

Que horas ela volta

Preparando a volta à Europa, para cruzá-la, assisti novamente o filme QUE HORAS ELA VOLTA com minha filha Bárbara Proner Ramos, a mais precoce feminista que conheço, na cidade onde ela e o irmão estudam.

Como sempre acontece quando revejo um filme, vi o que não havia visto, percebi o que me escapou da outra vez.
As caras da patroa, de prenome igual ao de minha feiosa companhia nesta tarde, são impagáveis (lembrei de várias gorduchas de classe média, quarentonas, com aquele ar de enfado com seus subordinados: a empregada, o marido, todos os que só existem para servi-las).

O desalento, deprimido, do coroa meu coetâneo, sua covardia ao suportar a mandona e o seu pedido de desculpas emcabulado e ineficaz, me fez lembrar vários panacas que certamente merecem a subalternidade assumida. Não tive pena do sujeito apequenado que era chamado pelo nome composto sem reagir.
As pequenas maldades e as grandes bondades estão em vários detalhes deste excelente filme.

Neste final de semana de ENEM torço por mais Jéssicas e menos Fabinhos nas Universidades públicas, cada vez mais.

Um excelente filme brasileiro, quase um espelho. Recomendamos vivamente.

Quando assisti da primeira vez comentei o que transcrevo a seguir:

“A bondade dos bons.

O filme QUE HORAS ELA VOLTA é bom sob vários aspectos.

Vale pela primorosa interpretação da protagonista Regina Casé, que vive a impagável Val ao melhor estilo do “Asdrubal trouxe o trombone” que a trouxe aos palcos. Vale pelas demais interpretações.

É um filme feminino, na melhor das acepções deste adjetivo. A Diretora Anna Muylaert dialeticamente posiciona a câmera de tal sorte que às vezes o expectador é conduzido a ver a partir da senzala, outras a partir da Casa Grande; da perspectiva da trabalhadora; da perspectiva da patroa. Um filme em que as mulheres dominam a cena restando aos homens a condição de coadjuvantes.

Não há maldade no filme. Todos são pessoas boas. Inclusive o expectador que dota o filme de significação, ao interpretá-lo. Um dos méritos da segura direção é exatamente este: recruta o expectador de classe-média para integrar aquela cotidianidade tão corriqueira.

A patroa não é apresentada a partir de clichês. É uma boa-pessoa, agradecida à serviçal que criou seu filho, solidária com os problemas da empregada desde que certos limites não sejam ultrapassados, desde que os lugares sociais sejam mantidos, que cada um fique em seu devido lugar. Serve o desjejum à filha da empregada, mas não tolera vê-la na piscina. Manda esvaziá-la. Tinha visto ratos na água. Não consegue, porque não consegue, controlar a irritação quando a empregada, ou sua filha, “passam dos limites”. É mais forte que ela, desabafa: “pode até não parecer, mas ainda sou a dona desta casa”. Todos conhecemos essas patroas, convivem conosco, são parte de nós que frequentamos cinema.

A empregada não é boba, sabe de tudo, ouve atrás das portas, acoberta os pecadilhos do adolescente a quem adora e por ele é adorada, em uma intimidade materna, filial; sabe onde é o seu lugar, posta-se como tem que se portar em uma sociedade de classes.

À cotidianidade da classe-média onde o patrão não se levanta da mesa para buscar um guaraná, onde há motorista, faxineira, piscineiro, a diretora do filme contrapõe a cotidianidade proletária das micro-histórias do aluguel do quartinho na periferia, do bar do bairro, das horas no transporte coletivo lotado, das conversas que colorem sem glamour as vivas concretas de quem a serve. Uma luta de classes latente, invisível, em que o momento mais agudo se dá quando a empregada decide o que fazer de sua vida, sem que a boa-patroa entenda por que. Não conseguiria compreender. A classe-média tem um déficit cognitivo que a impediria entender. Deve ser alguma fofoca do motorista ou alguma estratégia para obter aumento salarial, deve ser algo dessa gente, no fundo, ingrata.
Os elementos deste conflito de classes latente estão presentes como paisagem, como entorno social em diversos momentos. No desejo do patrão, herdeiro que não trabalha, na vulnerabilidade da menina que não quer se submeter ao sutil assédio decorrente da fantasia quase senil do deprimido e infeliz ex-artista plástico. Durante a festa o uso do uniforme, verdadeira capa de Harry Potter, torna invisível quem serve os acepipes. A presença servil atrapalha quando a família solidária ao filho vestibulando cuida de conferir o gabarito. Há dois mundos que só se comunicam no imperativo de um, na aparente docilidade adestrada de outro.

Um dia aquilo que era latente deixa de ser. O orgulho de mãe, a necessidade de serem mães, sublima e supera o dever da subserviência, e, repetida a história, a micro-história que todos os dias se desenvolve na periferia, ousam reescrevê-la para nunca mais ouvirem a pergunta que nomeia o filme.

Um filme sobre a classe-média, sobre a classe trabalhadora. Sobre o tratamento dedicado ao playboy que fracassa no vestibular, a quem se serve sorvete superior, e sobre o sucesso da filha da empregada. Sobre a infelicidade inerente à sociedade de classes: daquela e de muitas outras famílias burguesas e das famílias, distintas e desestruturadas famílias que as servem. E todos são pessoas boas.

Um filme para ser assistido pelos jovens que habitam casas em que os empregados são obrigados a trajar uniformes, como indicador do lugar que devem ocupar e como manto da invisibilidade, que vivem em casas onde há a comida dos patrões e a comida dos empregados. Esses jovens vivenciam o fim de uma era, uma era em que bondosos patrões davam emprego a essa gente, os domésticos, quando a esses não eram assegurados direitos trabalhistas.

Seus pais não compreenderão, talvez nem gostem do filme. São boas pessoas, só não conseguem entender de que, realmente, trata o filme. E, claro, nunca perdoarão o governo que atribuiu direitos aos domésticos. Bondosos, insistirão: “será pior para os próprios domésticos, pois ninguem mais vai querer contatá-los”.

Como disse certa vez Agostinho Ramalho Marques Neto, “quem nos livrará da bondade dos bons?”

Vistos, fronteiras e aduanas.

Uma das chatices para quem está dando a volta ao mundo de carro ou de moto é enfrentar os chamados “trâmites de fronteira”, para o ingresso das pessoas (imigração) e do veículo (aduana).

Nossa Land Rover está desde o dia 03 de setembro, há mais de 45 dias , na aduana para ser embarcada de New Jersey (USA) para a Europa. Atravessamos todos os países continentais das três Américas e o mais complicado está sendo sair (sim, sair!) dos EUA com o carro. Esperamos que logo consigamos.

Depois disso teremos uma folga: nos países que integram a União Europeia se faz os trâmites de fronteira na entrada em um dos países da UE e somente quando da saída. Mesmo assim há uma chata burocracia a ser cumprida na chegada. Comentaremos isso em outro post.

A “importação provisória” do veículo geralmente coincide com o prazo de permanência no país deferido pelos oficiais da imigração em cada fronteira (ou pelo prazo do visto, quando exigido).

Veja os países e territórios que exigem vistos para brasileiros.

Afeganistão – SIM
África do Sul – NÃO
Albânia – NÃO
Alemanha – NÃO

Andorra – NÃO
Angola – NÃO
Anguilla – NÃO
Antígua e Barbuda – NÃO

Antilhas Francesas – NÃO
Antilhas Holandesas – NÃO
Arábia Saudita – SIM
Argélia – SIM

Argentina – NÃO*
Armênia – SIM
Concedido na fronteira
Aruba – NÃO
Austrália – SIM

Áustria – NÃO
Azerbaijão – SIM
Bahamas – NÃO
Bahrein – SIM

Bangladesh – SIM
Concedido na fronteira
Barbados – NÃO
Bélgica – NÃO
Belize – – NÃO

Benin – SIM
Bermuda – NÃO
Bielo Rússia – SIM
Bolívia – NÃO*

Bósnia Herzegovina – NÃO
Botsuana – NÃO
Brunei – SIM
Bulgária – NÃO

Burkina Fasso – SIM
Burundi – SIM
Butão – SIM
Cabo Verde – SIM

Camarões – SIM
Camboja – SIM
Concedido na fronteira
Canadá – SIM
Catar – SIM
O hotel que solicita o visto

Cazaquistão – SIM
Chade – SIM
Chile – NÃO*
China – SIM

Chipre – NÃO
Cingapura – NÃO
Colômbia – NÃO*
Comores Islands – SIM

Congo – SIM
Coréia do Norte – SIM
Coréia do Sul – NÃO
Costa do Marfim – SIM

Costa Rica – NÃO
Croácia – NÃO
Cuba – SIM
Dinamarca – NÃO

Djibuti – SIM
Dominica – NÃO
Egito – SIM
Concedido na fronteira
El Salvador – NÃO

Emirados Árabes Unidos – SIM
Hotéis e cia aerea
Equador – NÃO*
Eritréia – SIM
Concedido na fronteira
Eslováquia – NÃO

Eslovênia – NÃO
Espanha – NÃO
Estados Unidos da América – SIM
Estônia – NÃO

Etiópia – SIM
Fiji – NÃO
Filipinas – NÃO
Finlândia – NÃO

França – NÃO
Gabão – SIM
Gâmbia – NÃO
Geórgia – NÃO

Ghana/Gana – SIM
Gibraltar – NÃO
Granada – SIM
Grécia – NÃO

GUAM Ilhas Marianas – SIM
Visto americano válido
Guatemala – NÃO
Guiana – NÃO
Guiana Francesa – SIM

Guiné – SIM
Guiné Bissau – SIM
Guiné Equatorial – SIM
Haiti – NÃO

Holanda – NÃO
Honduras – SIM, na fronteira
Hong Kong – NÃO
Hungria – NÃO

Iêmen – SIM
Não exige para visitar Sana’a
Ilha Borneo – Lado da Malásia NÃO, o lado da Indonésia SIM
Ilha de Malta/Malta – NÃO
Ilha Kiribati – SIM

Ilha Norfolk – SIM
Visto Australiano
Ilha Santa Lucia – NÃO
Ilhas Cayman – NÃO
Ilhas Cooks – NÃO

Ilhas Falklands – NÃO
Ilhas Marshall – SIM
Ilhas Salomão – NÃO
Ilhas Seychelles – SIM
Concedido no aeroporto

Ilhas Turcas e Caicos – NÃO
Ilhas Virgens Americanas – SIM
Visto Americano
Índia – SIM
Indonésia – SIM
Concedido no aeroporto

Inglaterra – Reino Unido – NÃO
Irã – SIM
Iraque – SIM
Irlanda – NÃO

Irlanda do Norte – NÃO
Islândia – NÃO
Israel – NÃO
Itália – NÃO

Jamaica – NÃO
Japão – SIM
Jordânia – SIM
Kuwait – SIM
O hotel que solicita o visto

Laos – SIM
Concedido no aeroporto
Leeward islands/ Ilhas Virgens Britânicas – NÃO
Lesoto – SIM
Letônia – NÃO

Líbano – SIM
Libéria – SIM
Líbia – SIM
Liechtenstein – NÃO

Lituânia – NÃO
Luxemburgo – NÃO
Macau – NÃO
Macedônia – NÃO

Madagascar – SIM
Visto obtido no desembarque
Malásia – NÃO
Malawi – SIM
Maldivas – SIM
Visto obtido no desembarque

Mali – SIM
Visto obtido no desembarque
Marrocos – NÃO
Maurício – SIM
Visto obtido no desembarque
Mauritânia – SIM

México – NÃO
Mianmar – SIM
Micronésia – NÃO
Moçambique – SIM

Moldávia – SIM
Mônaco – NÃO
Mongólia – SIM
Montenegro – NÃO

Montserrat – NÃO
Nagorno Carabaque – SIM
Namíbia – NÃO
Naurú – SIM

Nepal – SIM
Visto obtido na fronteira Nicarágua – NÃO
Niger – SIM
Nigéria – SIM

NIUE – NÃO
Noruega – NÃO
Nova Caledônia – NÃO
Nova Zelândia – NÃO

Omã – SIM
Visto obtido no desembarque
Palau Ilha – SIM
Visto obtido no desembarque
Panamá – NÃO
Papua Nova Guiné – SIM
Visto obtido no desembarque

Paquistão – SIM
Paraguai – NÃO*
Peru – NÃO*
Polinésia Francesa – NÃO

Polônia – NÃO
Porto Rico – SIM
Visto americano válido
Portugal – NÃO
Quênia – SIM
Concedido no aeroporto

Quirguistão – SIM
Concedido na fronteira
Quiribati – SIM
República de Belarus – SIM
República Democrática do Congo – SIM

República Dominicana – NÃO
República Tcheca – NÃO
Reunion – SIM
Romênia – NÃO

Ruanda – SIM
Visto obtido no desembarque
Rússia – NÃO
Saint Martin – NÃO
Samoa – SIM
Visto obtido no desembarque

San Marino – NÃO
São Cristóvão e Névis – NÃO
São Tomé e Principe – SIM
São Vicente e as Granadinas – NÃO

Senegal – SIM
Serra Leoa – SIM
Sérvia – NÃO
Síria – SIM

Somália – SIM
Somalilândia – SIM
Sri Lanka – SIM
Suazilândia – NÃO

Sudão – SIM
Suécia – NÃO
Suiça – NÃO
Suriname – NÃO

Tadjiquistão – SIM
Tailândia – NÃO
Taiwan – SIM
Tanzânia – SIM
Concedido na fronteira

Tibet – SIM
Timor Leste – SIM
Obtido no desembarque
Togo – SIM
Tonga – SIM
Concedido no aeroporto

Transnístria – SIM
Trindade e Tobago – NÃO
Tunísia – NÃO
Turcomenistão – SIM
Concedido na fronteira

Turquia – NÃO
Tuvalu – SIM
Ucrânia – NÃO
Uganda – SIM
Concedido na fronteira

Uruguai – NÃO*
Uzbequistão -SIM
Concedido no aeroporto
Vanuatu -SIM
Venezuela – NÃO*

Vietnã -SIM
Zâmbia – SIM
Zimbábue -SIM

* países que aceitam o RG brasileiro. Útil para poupar páginas no passaporte de quem está overlanding.

PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira.

Nossa Grande Viagem nunca terminará. Neste feriadão, na divisa entre Paraná e São Paulo, Francisco, Bárbara e Xixo, com o irmão mais velho deste, o Tio Álvaro das “crianças”, puderam se aventurar pelas cavernas Morro Preto, Santana, Cafezal e, pela melhor, a Água Suja, por dentro do rio Betary nos ocos das montanhas do Vale do Ribeira. Lama, risadas, e motivos para as fotos do Fran. Estava sentindo falta.

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Depois que a Defender chegar à Europa para onde iremos?

Essa é outra pergunta frequente. Os conflitos bélicos no oriente médico, as intervenções militares dos EUA, da França, de Israel, e agora da Rússia, na Síria tornam desaconselhável pensar em atravessar por ali, com destino à Ásia ou à África. Há dezenas de overlanders sem saber como fazer, como atravessar aquela parte do planeta.

Todos os que estão dando a volta ao Mundo de carro, moto ou motor-home estão “dando um tempo” para ver se aparece uma solução. Queremos ir à Índia, mas está complicado pensar em atravessar o norte do Iraque, na fronteira com a Turquia, onde já existiu o Kurdistão. Pelo outro lado, pela Jordânia, teria que passar pelo litoral Sírio, com riscos evidentes e ainda atravessar de ponta a ponta o Iraque, onde o Estado Islâmico se abriga.

De nossa parte resolvemos desacelerar. Até o final de 2015 devemos ficar entre Portugal, Espanha, França e Itália. No início do ano, por 4 ou 5 meses percorreremos os Balcãs e seu entorno: Eslovênia, Croácia, Bósnia, Sérvia, Montenegro, Albânia, Macedônia, Bulgária, Romênia, Moldovia, não necessariamente nesta ordem.

Até a metade de 2016 tomaremos a decisão entre ingressar no Irã pela Turquia ou contornar a zona de conflito no oriente médio e sair da Europa pela Ucrânia, passando pela Geórgia e pelo Azerbaijão para alcançar o Irã pelo outro lado do Mar Negro. Em ambos os casos teríamos que depois evitar o Afeganistão. Esperamos que nos próximos seis meses fique mais fácil tomar a decisão.

Alguma sugestão?

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Enquanto esperamos…

Enquanto esperamos que nossa Defender chegue na Europa, publicaremos algumas memórias da travessia costa-a-costa, de Los Angeles a New Jersey, durante o mês de agosto deste ano. Havíamos voltado ao Brasil deixando a Land na Dalcar, na região metropolitana de LA.

CALIFÓRNIA – agosto de 2015

11 de agosto

Chegada. Fomos diretamente para a oficina buscar a Land na oficina onde estava há mais de um mês, sendo consertada.

Para chegar à oficina contratamos os serviços de transporte privado, alternativo aos taxis. Mais barato. Entre LAX e Riverside, onde se localiza a oficina do Dalton, um taxi custa 150 e o carro executivo com motorista brasileiro acertou a corrida por 100 dólares. Já havia usado anteriormente este serviço, com a motorista Anie, bem melhor que taxi.

Veio o marido dela, Celso, coronel aposentado da Brigada militar do RGS. Reacionário. Contou como eram suas relações contratuais: paga 800 dólares por semana para “receber propostas de corridas” de um site que administra os pedidos de corridas, algo como um Uber, só que mais antigo, parecido com o easytaxi. Quando um motorista aceita a corrida, pelo aplicativo recebe as instruções de onde recolher o passageiro, em que horário e para onde levá-lo.

Não parou de falar. Sente-se livre, trabalha quando quer. O filho formado no Brasil em administração veio fazer um MBA, terminou a pós, mas preferiu trabalhar de motorista aqui. Um típico vira-latas: tudo o que é estadunidense é bom, tudo que é brasileiro é ruim. Por intermédio do coronel aprendemos que nos EUA ganha-se muito e no Brasil só se paga imposto”. Contraditoriamente investe suas reservas no Brasil, onde o lucro é maior. Pelo falastrão soubemos que “o Lula quebrou a Varig”, que era uma “empresa boa pois trazia remédios do exterior se alguém precisasse e não cobrava nada”. Pelo menos foi o Lula e não o filho dele, aquele que é dono da Friboi e tinha um laranja chado Eike Batista. Um pobre coitado este meganha gaúcho aposentado precocemente. Mas arrota perú e se diz Republicano. Esquecendo que é imigrante tem preconceito contra os latinos. Como se ele não fosse um de nós.

No mesmo dia vivenciamos outro incidente: caminhando pela Hollywood Boulevard procurando as estrelas na calçada dos artistas preferidos fomos abordados por um desses promotores que distribuem panfletos que oferecia passeio por vários pontos turísticos de Hollywood, casas das celebridades, estúdios, em “não menos de uma hora e meia”. O preço marcado na filipeta era de 49 dólares por pessoa. Recalcitrantes dissemos, para despistá-lo, que pensaríamos a respeito, talvez amanhã. Veio o bote, o segundo passageiro pagaria metade. Como dissemos que pensaríamos até o dia seguinte, apontando o carro que estava a ponto de sair com alguns lugares vagos veio a “final offer”: 50 dólares pelos dois sem taxas. Decidimos aceitá-la. Veridiana comentou: o preço é pela cara do freguês.

Seríamos nós e uma família de mexicanos, umas 10 pessoas entre adultos e crianças, que negociou com outro vendedor de serviços.

Logo no início do percurso o motorista, que não falava espanhol se irritou porque cruzei as pernas e meu pé ficou muito próximo do cotovelo dele, mas não a ponto de tocá-lo. Fez cara feia e eu pensei: despediu-se da gorjeta e fiz que não me incomodava sua carranca. Visitamos uma colina de onde se vê a montanha com as letras Hollywood e a cidade. Lá em cima comentei com os demais passageiros, em espanhol, a falta de educação do motorista dizendo “quien se cre, ese gringo de mierda”. Fiquei surpreso com a alegria, o brilho nos olhos dos mexicanos. Todos tiveram a mesma opinião.

Seguindo o passeio o mal educado começou a trafegar acima da prudencial velocidade para um carro aberto, sem capota, com vários passageiros sem cintos de segurança.

Ganancioso, o motorista resolveu cometeu um erro ao decidir passar novamente no ponto inicial do trajeto para tentar pegar mais alguns passageiros. Sem que ele percebesse uma das mexicanas gesticulou algo para o “vendedor” com quem tinham contratado o passeio.

Quando o carro dava a volta na quadra para retomar o tour o motorista recebeu um telefonema e logo estacionou. Em um minuto chegou um sujeito que parecia o chefe por ali perguntando à mexicana que gesticulou o que havia acontecido.

Todos os mexicanos começaram a falar em espanhol ao mesmo tempo, uma outra mulher, muito braba chegou a dar tapas com a mão aberta no carro, dizendo querer o dinheiro de volta ou chamaria a polícia criticando aos berros a falta de juízo do motorista que tudo ouvia calado, cabeça baixa, servil. O arrogante havia dado lugar a um acadelado, assustado, digno de pena, sujeito acabrunhado.

Resultado, devolveram os nossos 50 dólares, e os 140 dólares para a família mexicana. Cobraram pela cara dos fregueses efetivamente, mas estes eram brabos, traziam um ódio secular engasgado da arrogância gringa. Impossível não lembrar do brigadiano gaúcho motorista e gostar ainda menos dele.

No dia seguinte fomos ao Pier de Santa Mônica onde termina a Route 66, que começa em Chicago onde chegaríamos em alguns dias.

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Quando a nossa Defender chegará na Europa?

Em respeito aos quase 18.000 companheiros dessa Nossa Grande Viagem, explico o que está acontecendo.

Para mandar a Lola dos EUA para Portugal contratamos um agente aduaneiro que se responsabilizaria por colocá-la em um contêiner, obter o papelório necessário e embarcar o contêiner em um navio. Prometeram que o carro estaria aqui em torno de 15 dias depois do embarque.

Há quase um mês na Europa e a Lola ainda não está nem no contêiner. Estamos lidando com a burocracia aduaneira estadunidense, não diferente da existente em outros países.

Quando ingressamos nos EUA em 11 de maio de 2015, vindo do México em Tecate, na fronteira estadunidense a policial simplesmente fez sinal para que passássemos. Exibi os passaportes e ela insistiu que poderíamos entrar, passar, que nada mais era necessário.

Ressabiado, insisti. Fazia questão de carimbar os passaportes e queria registrar o ingresso do carro nos EUA. Contrariada, de cara amarrada, mandou que estacionasse e nos indicou uma fila.

Depois de insistir muito consegui que carimbassem os passaportes, mas não houve meios de documentar o ingresso da Defender nos EUA. O que os policiais diziam fazia sentido: o carro está no meu nome e se está nos EUA é porque entrou. Para que documentar o óbvio?

No dia em que entregamos a Lola no escritório do agente aduaneiro em New Jersey para que a embarcassem o funcionário da agência aduaneira perguntou pela documentação de ingresso no país. Expliquei o que constou acima. Ele balançou a cabeça negativamente e me entregou uma folha de papel com um número. Eu deveria ficar monitorando por aquele número para saber quando chegaria o carro na Europa, “dentro de duas, no máximo três semanas”.

Três dias depois embarcamos no avião para Portugal, confiantes.

Ocorre que não era tão fácil. Um funcionário da aduana implicou dizendo que deveríamos ter pedido – antes de ingressar com o carro nos EUA – uma certidão de “não residente”, pois tal documento provaria que estávamos de passagem, a caminho da Europa.

Sendo inútil argumentar resolvemos pedir a tal “certidão de não-residente”, por email, pois estávamos em Lisboa. Imaginamos que seria algo rápido.

Balde de água fria:
“Mr. Wilson Ramos Filho,
This request has been received. Exemptions are currently taking 14 – 21 business days for processing.”
Esse atraso no nosso cronograma não estava nos nossos planos.

Para quem esteja planejando atravessar os EUA aconselhamos entrar previamente em contato com o
US EPA Imports (Exemptions) por telefone (734) 214-4098 or 4100
Fax: (734) 214-4676 ou por e-mail: imports@epa.gov para obter a certificação de não-residente, facilitando as coisas quando tiverem que embarcar a viatura em contêiner.

O prazo de 14 a 21 dias úteis poderia ser abreviado, explicou o agente aduaneiro. Tentariam “agilizar”. Já estávamos há quase 20 dias em Portugal; viemos para a Espanha em carro alugado.

Demorarão mais uma ou duas semanas para desembaraçar o enrosco. E só depois embarcarão a Lola. E tardará mas 2 ou 3 semanas para o carro estar aqui.

A Lola só chegará, na melhor das hipóteses no final de outubro, período que eu havia planejado estar no Brasil, com o Fran e com a Bá (nunca fiquei tanto tempo longe deles).

Pensei muito e decidi “antecipar” minha ida ao Brasil de modo a poder estar de volta a Portugal quando a Lola estiver chegando (só falta agora eu embarcar e vir a saber que a Defender está a caminho… ). O mais chato é o déficit de informações. Dizem que estão trabalhando, que é assim mesmo e blá, blá, blá.

De Curitiba ficarei monitorando e voltarei a Portugal só quando tiver a confirmação de que a Lola está dentro de um contêiner a caminho da Europa. Pelo menos nos finais de semana poderei estar com Francisco e com Bárbara (excelente compensação!).

Outros overlanders podem obter mais detalhes no link:https://help.cbp.gov/…/temporary-importation-of-a-car-for-p….

Quem não quer se incomodar fica no sofá. Dar a volta ao mundo de carro pressupõe contornar dificuldades tais que contornar o planeta dirigindo é a parte mais fácil da aventura.

Eis a prova da coincidência

“Olá Xixo,
Nos encontramos na sua primeira parada na pousada Miracema em Praia Grande SC, em dezembro de 2014. Vc estava com seus filhos e começavam uma grande empreitada! Meu marido e eu ficamos encantados com o projeto! 9 meses após, passeando pelo Central Park em NY, meu marido avistou seu carro. Parecia coisa de filme! Nem combinando daria tão certo! Lhe envio esta foto para seus arquivos. Pelo que vi, sua viagem continua, portanto, boa viagem!!

Abs,
Roberto e Jacqueline de SP”.

Não somos exotéricos. Fôssemos, veríamos nesta coincidência conspiração cósmica. Racionais, celebramos mais este encontro memorável. Viajamos assim.

Doenças internas. Vice-versa.

Há várias posturas que se pode assumir em face de adversidades. E tudo depende de uma tomada prévia de posição.

O carro teve que ser empurrado para dentro do contêiner porque o alternador estava avariado, não carregava a bateria.

Soubemos que o órgão estadunidense havia “negado” o pedido de “exportação” da Lola dos EUA para Portugal, por ausência de autorização para circular pelos EUA (sim, no porto de New Jersey, dentro do contêiner, que levará a Defender para a Europa). E agora? Já estou em Portugal!

Não consegui dormir. Por preocupação e por dores na região abdominal. Às 5hs da madrugada me resignei. Fui de taxi ao Hospital Santa Maria, em Lisboa, com fortes cólicas. Foram 6 horas de espera: exames de sangue, clínico com uma médica, raio X, ecografia da barriga e, por inconclusivos, uma tomografia computadorizada. Duas horas mais tarde, depois de um prenúncio de escândalo, um outro médico dignou-se a analisar para o irritado nada paciente os resultados dos exames: “Nim. Nem sim, nem não, nim”, disse-me o abobado médico português. Podia ser apendicite, podia não ser. Eu poderia ficar internado ou ir embora e voltar se a dor piorasse. Não daria remédio pois a dor seria o alarme de algo mais sério.

Pegou uma espécie de “pochete” e, determinando à enfermeira que me tirasse a agulha espetada no braço durante a madrugada, piscou e foi embora. De fato, a medicina foi globalizada. Não entendi a piscada, mas não me espantou a postura do “doutor”. Parecia brasileiro.

Podia voltar ao Brasil e, em casa, tratar da saúde e do desembaraço do carro nos EUA. Seria razoável.

Poderia, também, não me deixar abater e (i) recorrer a um outro órgão nos EUA e arriscar uma eventual necessidade de intervenção cirúrgica na Europa. Comprei um alternador novo em Lisboa com a ajuda de um landeiro simpático, Pedro Salgado. Decisões!

As decisões já haviam sido tomadas ainda no ano passado quando decidi dar a Volta ao Mundo de carro. Nada me afastará do meu objetivo.

Hoje cedo as fortes dores já eram mero “nó nas tripas”, um desconforto, uma dor em volta do umbigo, um pouco abaixo, do lado direito. Não faço idéia do que tenha ali, por detrás de excessivo tecido adiposo, nos ocos de minha pança. O email para “Imports@epa.gov” nos EUA já havia sido enviado, recorrendo da decisão do burocrata que não quer deixar o carro sair do país porque não poderia ter entrado sem autorização dos órgãos ambientais (?). O alternador da Lola está na mala.

Pensei nos idiotas que nos envergonham ao criticar o Brasil enaltecendo a “descomplicação” estadunidense ou a “excelência do serviço público europeu”. Não sabem do que estão falando. São meros vira-latas que acham que tudo o que é estrangeiro é melhor do que o que temos no Brasil. São uns pobre coitados os que assim pensam. Coisa de gente pouco viajada? Talvez. Mas certamente coisa de gente preconceituosa, um defeito congênito, uma “doença interna” que vem das profundezas das mediocridades normalizadas.

Saímos cedo de Lisboa para Ericeira e Peniche. O tempo ajudou e já estamos a caminho de Coimbra.

A etiqueta no meu braço diagnosticou corretamente: “doença interna” (primeira foto).

Já imaginaram se fosse externa? Estamos em Portugal e daqui resolveremos os problemas.

Tomada prévia de posição: decidi ser feliz e dar a volta ao mundo. E vice-versa. Principalmente vice-versa.

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Vítimas do HSBC

Como advogado, depois de 33 anos de trabalho, um dos meus últimos afazeres foi criar as condições para o surgimento do movimento vitimasdohsbc.com.br . O instituto que presidi promoveu uma seriíssima pesquisa sobre os métodos de gestão do HSBC e concluiu que trabalhar nesta empresa, verdadeira “delinquente patronal”, faz mal à saúde. O pior é que os métodos de gestão que utilizam não é muito diferente daqueles empregados em outros bancos e em outras empresas.

Como essa nossa grande viagem é acompanhada por pessoas de mais de vinte nacionalidades, sapecamos aqui o link para quem se interessar em conhecer um pouco mais a respeito. Mas só para quem se interessar e, eventualmente, se considerar vítima de métodos de gestão semelhantes.

Onde é que começa a Europa?

Para parte das elites nos países hegemônicos inicia ali nos Pirineus, já que consideram a Península Ibérica uma extensão do norte da África, do Magreb. Foi assim por 800 anos, até meados de 1400 quando Castela e León concluíram a “reconquista”. Passados mais de cinco séculos, convenhamos, nada justifica aquela preconceituosa percepção geográfica.

A Europa começa no Cabo da Roca, onde termina o mar, no ponto mais ocidental do continente, de onde o pôr do sol, sereia cantante, atraiu navegantes cobiçosos há pouco mais de 500 anos.

Ali onde Luiz de Camões cantou em honra das armas e dos barões, encontramos um simpático italiano que vinha de chegar do Brasil, completando sua volta ao mundo em uma antiga Vespa de 125cc (cruzou a Europa, chegou à Índia, foi ao sudeste asiático, entrou na América pelo Peru e pela transoceânica chegou a Fortaleza onde embarcou, com a Vespa desmontada, dentro de malas, de volta ao antigo continente). Em um ano, em apenas um ano, esse descendente de Marco Polo realizou o sonho de milhares. Un chapeau pour lui.

Aqui começa nossa nova travessia, por outros dois continentes. Com o nariz apontando para onde nascerá o sol todos os dias, por um ano inteiro, seguiremos a rota que já foi de Marco Polo e que hoje é de muitos desassossegados que não suportaram a condenação ao sofá, à subordinação decorrente das relações de produção capitalistas, ao martírio dos shopping centers.

Começará daqui, quando a Lola chegar, a segunda etapa da nossa (tua também) grande viagem em busca do que já está dentro de cada um de nós.

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Overlandices

As pessoas que estão viajando em longas expedições ou dando a volta ao mundo, como nós, são considerados como overlanders.

Conhecemos vários brasileiros que estão vagando pelo mundo, de carro, no encontro anual de overlanders no mês de maio, em Flagstaff, nos EUA.

Antes disso havíamos jantado duas vezes com o Roy e a Michelle (MUNDO POR TERRA) no México. Desde então reencontramos o Dan e a Liene (ZANZANDO) em Los Angeles e Sausalito; Castro e Rosely (VAMOS PRO ALASCA) em San Francisco; Sérgio e Eleny (MUNDO CÃO) em Quito.

Nos desencontramos de Roy e Michelle no Estado de Montana e da Connie Richter em Minnessota.

Desde ontem, em Portugal estamos com os queridos amigos Renan e Paula (OUTSIDERSBRAZIL.com) Reflexões, solidariedade e trocas. Amizade.

Gente esquisita esses tais overlanders. Insistem em ser livres. E felizes.

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A Lola será embarcada até o fim da semana aqui nos EUA e chegará até o final do mês em Portugal.

Acreditam que ainda não me confirmaram se chegará em Lisboa ou na cidade de Porto? Só saberei quando já estiver lá, pois embarco pela TAP amanhã.

O alternador pifou. Já pedi para o Rogério Pinto, mecânico de Curitiba e nosso anjo-da-guarda, para comprar por internet e mandar entregar para mim em Portugal. O que me falta é uma boa oficina mecânica em Porto, em Lisboa ou entre as duas cidades que entenda de Defender 110, 2010/2011, motor puma.

Alguém conhece algum entre Lisboa e O Porto?

Depois da Europa havia planejado ingressar na Ásia pelo Oriente Médio.

Agora já estou em severas dúvidas pela violência contra os que tentam fugir da Síria. E já tenho sentidas incertezas sobre passar tanto tempo na Europa quando vejo a insensibilidade dos governos em face das urgências humanitárias.

Talvez esteja muito sensível por conta das saudades que sinto do Fran e da Bá, pois já faz quase um mês que os vi, ainda em Curitiba (não sei se notaram, mas sou louco por eles). Mas a foto daquela criança na praia me impactou fortemente.

A dor pela ausência da companhia dos filhos é enorme. Imagino a dor pela perda definitiva. Lembrei do Chico: “saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu” e meus olhos marejaram.

Ainda sem saber que o coitado do pai daquela criança havia sido condenado pelo deus dele a sobreviver, postei no meu perfil o que consta abaixo, que só interessará a quem, como eu, ficou comovido pela foto.

Não uso aqui a mesma foto, esta página é para outras emoções, para as coisas boas da vida. Optei pela versão artística, pela imagem, pela contradição.

Viajar também é refletir sobre o tempo em que vivemos, sobre as relações sociais que construímos, sobre como decidimos viver, sobreviver.

“Do que fogem os refugiados que morrem às centenas tentando cruzar o Mediterrâneo?

Não existe dor maior que a perda de um filho. Desejo sinceramente que os pais desta criança também tenham morrido.

Há duas principais motivações para que estes pobres se arrisquem na travessia, deixando tudo o que tinham, amigos, parentes, para tentarem chegar à Europa:

1) muitos fogem do capitalismo, das consequências desastrosas que as relações capitalistas de produção causaram em seus países de origem (exploração colonial e pós-colonial, disputa por petróleo, minerais, riquezas naturais). Fogem do capitalismo periférico para tentar uma chance de ser explorado nos países de capitalismo central; e

2) outros fogem das consequências desastrosas da crença em deus. Os algozes destes desafortunados que em desespero fogem para a Europa, nos países de origem, matam aqueles que não acreditam “no deus certo”, assassinam em nome de seu deus. Mais do que nunca fica evidente que o mundo seria muito melhor, menos violento, se menos pessoas acreditassem na existência (improvável) de deus. Qual é o “deus certo”, podem matar por serem “o povo escolhido por deus” ou porque seguem a Bíblia, o Corão ou as Torás?

O capitalismo e a crença em deus estão matando crianças, homens, mulheres em diversas partes do mundo, mas nas duas margens do Mediterrâneo com uma repercussão maior.

E tudo com a hipócrita, canalha, cumplicidade de todos que não conseguem deixar de acreditar no capitalismo e em exoterismos medievais, obscurantistas e desumanos, louvando o “deus certo” . E que se ferrem aqueles que teimam em louvar o “deus errado”; que queimem no inferno ou que se afoguem com seus filhos os que, racionais, não acreditam no improvável.

Se esses pobres coitados estivessem fugindo de Cuba todos concordariam que estariam “fugindo do socialismo”. Por que a dificuldade em admitir que esses desgraçados fogem do capitalismo e dos crentes em deuses construídos à imagem e semelhança de seus intérpretes, seus profetas, seus pastores ???”

Como vocês pretendem mandar o carro dos EUA para a EUROPA?

Essa foi a terceira pergunta mais frequente durante a Nossa Grande Viagem.

Em resumo, a coisa funcionou assim:

  1. contratamos um agente, na Califórnia, com quem combinamos a entrega do carro no escritório da Schumacher Cargo Logistics no Porto de New Jersey;
  2. escolhemos o porto onde retiraremos o carro;
  3. entregamos o carro (hoje cedo). O sujeito simplesmente foi até o carro, procurou defeitos na lataria, e anotou no papel da primeira foto;
  4. perguntou o que tinha dentro das malas e no bagageiro e se tínhamos feito uma lista de tudo o que ficava no carro. Optamos por confiar nos sujeitos. O que ficou foram roupas de inverno e de montanhismo e, nas caixas sobre a Land, peças de reposição e ferramentas;
  5. apertos de mão e só!

Ainda não pagamos nada, mas sabemos que custará em torno de US $ 2600,00, porque escolhemos um contêiner exclusivo para a Lola, sem compartilhamento de espaço. Gerarão um “invoice” e pagaremos com cartão de crédito.

Feito o pagamento nos informarão quando a Lola chegará em Portugal. Tardará em torno de 20 dias.

É isso. Só isso. Não demorou mais que meia-hora. E fomos embora com um certo aperto no peito.

Esperamos que o desembaraço na cidade de Porto seja assim. Descomplicado.

A Ásia está mais perto de nós desde esta manhã. A Lola percorrerá toda a Europa nos próximos meses. A parte asiática será planejada durante o ano de 2016 e a volta ao redor da África em 2017. Uma coisa de cada vez.

Para que ter pressa?

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Lola em Nova York!!!

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Coincidências da vida?

No primeiro dia da Nossa Grande Viagem, ainda em Santa Catarina, conversamos com um casal catarinense e contamos a eles que iríamos a Ushuaia, ao Alaska e de lá iríamos, cruzando os EUA de costa a costa, até New York. Ela se espantou, disse que adoravam viajar e nos desejou sorte.

Ontem entramos, vitoriosos, em New York. Estacionamos na 59th esquina com a 6a. Avenida, na porta sul do Central Park para uma foto.

E não é que me aparece a mesma catarinense exatamente no momento em que chegamos a NY?

A mesma pessoa, no primeiro e no último dia da NGV? Exatamente! Ela e seu marido haviam chegado no dia anterior !!!

Que enorme, inacreditável, coincidência.

Há um fugaz registro deste encontro na primeira foto abaixo, no momento em que esta simpática catarinense fotografava nosso encontro. Ela ficou de postar a foto que fez ontem. Espero que leia este post e que sapeque a foto como comentário desta incrível coincidência.

Alguém tem alguma história de coincidência semelhante para contar?

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Um carinho para a Lola

O farol auxiliar estava com o vidro quebrado e já estava na hora de trocar o óleo do motor. Um carinho para a Lola.

Temperamental, não retribuiu. Nos deixou na mão, sem bateria, no centro de Chicago. Fazer o que?

Nunca entendi essas “young ladies”, mas sigo tentando.

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Mensagem de ‎Chris Wieser

Chris Wieser para Nossa Grande Viagem

Here you are….passing us on County Road 46 heading towards Albert Lea Mn around 5:15 this afternoon. Drive careful and enjoy your trip!

Aqui está…. Passando por nós na Estrada 46 indo para Albert Lea Mn cerca de 5:15 da tarde. Dirijam com cuidado e aproveitem a viagem!

Sabem o que isso significa? Sabem?

De Curitiba até Cartagena, na Colômbia, rodamos 20 mil quilômetros (fomos até Ushuaia antes de começarmos a subir pela América do Sul).

De Colón no Panamá até a fronteira com os EUA foram 10 mil quilômetros.

De Los Angeles, de onde começamos a travessia de costa a costa (via Seatle) até La Crosse na fronteira de Minnessota e Visconsin foram 7 mil e daqui até New Jersey de onde embarcaremos a Lola para a Europa serão mais 3 mil quilômetros, totalizando 10 mil!

Sabem o que isso significa? Sabem?

Absolutamente nada! Ou tudo.

Risos.

No meio do caminho, de costa a costa nos EUA. Onde está a danada da Lola hoje?

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Onde está a Lola?

Em um lugar onde um Bisão passeia calmamente na estrada. Quem arrisca um palpite?

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Onde está a Lola agora?